Barbárie ou O Que? Sobre o Futuro da Espécie Humana no Século XXI

“A evolução cultural se concretiza em sociedades simples, tradicionais e modernas. Não há sociedade nenhuma que esteja excluindo o fato da evolução cultural. No entanto, existem diferenças que dizem respeito à dimensão pela qual a evolução cultural possa ser bloqueada. E a cultura moderna – apesar de sua suposta racionalidade – pertence àquelas sociedades onde o tamanho do auto-bloqueio da evolução cultural tem alcançado o seu nível mais alto.”
Klaus Eder ( tradução T.M.)

“A luta pela diversidade das espécies e das culturas são os dois grandes movimentos sociais do século XXI. As duas forças estão intimamente interrelacionadas. Todas as culturas encontram as suas raízes comuns na natureza, porque todas as culturas surgiram a partir de uma estreita relação com a terra.”
Jeremy Rifkin (tradução T.M.)

“A economia que ignora ou descuida os valores morais, é falsa.”
Mahatma Gandhi

Sobre o Reino Universal da Racionalidade Instrumental e o Direito à Diversidade Cultural e Ambiental como Utopia Andino-Amazônica no Século XXI

Thomas A. Mitschein
Coordenador do Poema
Professor do PPGEDAM
Universidade Federal do Pará.

I

“A ciência pesquisa, a tecnologia executa, o homem obedece.” (cit. em Mumford 1986, p. 579, tradução T.M.) Com estas palavras os organizadores da exposição mundial em Chicago, realizada em 1933 sobre o título “O Século do Progresso”, transmitiam a sua profunda fé na atividade científica como fonte dos avanços tecnológicos e referencial norteador para a organização racional da sociedade moderna. Cabe lembrar que essa fé foi externada num momento histórico que, a partir da ascensão do fascismo na Europa, acabou sinalizando a carnificina da segunda guerra mundial.
Ao analisarem, em seu exílio norte-americano, as tendências do desenvolvimento da civilização burguesa, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer (1984) identificavam a crise desta mesma civilização com a marcha vitoriosa da razão iluminista enquanto racionalidade instrumental que começou no século XVII e levou a uma situação “na qual a violência do sistema sobre os homens cresce a cada passo que os libera da violência da natureza” (ibid, p.56,tradução, T.M.). Seguindo metodologia que procura, a qualquer custo, quantificar e homogeneizar o concreto real, esta racionalidade, além de tratar a natureza como simples objeto de exploração, leva à afirmação do status quo social que, pelo fato de estar dominado pela economia de mercado e pela máquina burocrática do Estado, acaba anulando o individuo.
Mas há caminhos para sair desta contramão histórica? Adorno e Horkheimer insistem na superação do “caráter totalitário do iluminismo ” em sua relação à natureza . Para ambos, este se manifesta pelo fato de que “antes e depois da física quântica a natureza é compreendida pela matemática e mesmo aquilo que não se enquadra, o indissolúvel e o irracional, está sendo cercado por teoremas matemáticos” (ibid, p. 41, tradução, T.M). Ou seja: considerando que nos cálculos da racionalidade instrumental não existem nem espaço nem respeito pelo incomensurável, o estabelecimento de uma nova relação entre natureza e sociedade é algo indispensável para romper o conluio entre razão e dominação, que tomou conta da civilização moderna. Este, por sua vez, depois da segunda guerra mundial, ganhou novas dimensões no âmbito do conflito sistêmico entre os Estados Unidos e a União Soviética que, em grande parte, foi conduzido por ambos como competição científica e tecnológica envolvendo, principalmente, a exploração do espaço cósmico e a otimização das armas nucleares. No caso da corrida armamentista, as duas superpotências chegaram a um nível de eficiência destrutiva que permitiria a cada uma delas aniquilar o seu inimigo e todos os seus aliados mais de uma vez só. (mudar tamanho das letras)
Este possível overkill, criado a partir dos avanços das atividades científicas e tecnológicas para fins militares intensificou, sobretudo na sociedade civil do bloco ocidental, a discussão sobre a responsabilidade social e política dos próprios cientistas quanto à aplicação dos resultados do seu trabalho.
Ao apresentar no mesmo palco figuras como Newton e Einstein, o escritor suíço Friedrich Duerrenmatt (1962, tradução T.M.) levanta em sua peça “Os Físicos” esta problemática da seguinte maneira.
- Newton: “O que interessa é a liberdade da nossa ciência e nada mais. Quem garante esta liberdade, não me importa. Sirvo a qualquer sistema que não me perturbe. Eu sei, hoje se fala muito da responsabilidade dos físicos. De repente, surge o medo e acabamos nos tornando moralistas. Isto é uma grande tolice. Precisamos realizar trabalhos pioneiros e mais nada”.
- Einstein: “Certamente. Precisamos ser pioneiros. Concordo. Mas não podemos abrir mão da responsabilidade. Fornecemos para a humanidade enormes instrumentos de poder. Isto nos dá o direito de cobrar condições. Precisamos nos tornar políticos poderosos porque somos físicos. Temos que decidir quem deve ser beneficiado pela nossa ciência”.
-Moebius: “Há riscos que nunca devemos correr. A destruição da humanidade é um deles. O que o mundo pratica com as armas das quais já dispõe, sabemos; o que faria com aquelas que eu posso proporcionar, podemos imaginar. Tomei esta preocupação como referencial norteador da minha atuação. Fui um homem pobre. Tinha uma mulher e três filhos. Na universidade, me esperava a fama, na indústria, o dinheiro. Os dois caminhos eram perigosos demais. Se tivesse publicado os meus trabalhos, uma revolução na ciência e o desmoronamento da base econômica teriam sido as conseqüências. A responsabilidade me forçou a escolher outro caminho. Abri mão da minha carreira acadêmica, da indústria e da minha família. Resolvi fazer o papel de bobo. Fiz de conta que o Rei Salomão me visitava e, prontamente, fui encarcerado num manicômio”.
- Newton: “Mas isto não foi nenhuma solução…”
- Moebius: “A razão exigiu este passo. (…) A nossa ciência se tornou terrível, a nossa pesquisa perigosa e o nosso conhecimento mortal (…) Somente no manicômio estamos, ainda, livres para pensar. Na liberdade, os nossos pensamentos se tornam explosivos“.
No bloco ocidental, os defensores da corrida armamentista se sentiram pouco afetados por reflexões dessa natureza. Para eles, o equilíbrio do poder bélico era uma conditio sine qua non para defender democracia e liberdade contra as supostas aspirações expansivas dos soviéticos. Qualquer falha nesse contexto, fatalmente levaria à conseqüências desastrosas. Realçavam o exemplo da Polônia em 1939, que mostrou o que acontece quando se procura enfrentar tanques blindados com um exército de cavalheiros. No entanto, por mais que se possa compartilhar a premissa de que, na relação entre Estados nacionais ou blocos de Estados, a inferioridade militar de um ou de alguns dos atores envolvidos possa ameaçar à paz; no caso das armas nucleares, o seu uso, provocado por imprudência ou falhas humanas, acaso ou irracionalidade política, levantou, pela primeira vez na história das guerras, o perigo de acabar com a vida humana neste planeta de uma vez só.
Segundo Eric Hobsbawm (1996, p. 525), “tragicamente, a guerra nuclear foi a filha do anti-fascismo”, uma vez que “uma simples guerra entre os Estados / Nações certamente não teria levado os físicos nucleares de ponta, eles próprios, em grande parte refugiados ou exilados do fascismo, a exortar os governos britânico ou americano a construir uma bomba nuclear.” Contudo, o êxito da construção da bomba atômica durante a guerra mostrou que, através da concentração de enormes recursos financeiros e humanos, as atividades científicas e tecnológicas são capazes de gerar resultados importantes e de impacto em reduzidos prazos de tempo. Depois de 1945, esta experiência se tornou, no bloco ocidental, referência para os centros de pesquisa que foram criados e/ou ampliados por instituições governamentais ou grandes empresas. Desta maneira, a ciência, sobretudo no âmbito das disciplinas do conhecimento técnico, que encontram o seu locus de produção no grande laboratório, tornou-se, cada vez mais, uma espécie de força produtiva para fins militares de governos e para os objetivos econômicos do setor privado. Os seus resultados espetaculares, nestes contextos, são evidentes. Entretanto, foi a partir dos seus próprios êxitos que foi iniciada a desmistificação da ciência como legitimadora inquestionável do progresso tecnológico e dos riscos que este, fatalmente, traz à tona.

II.
Sendo regida pela lógica da racionalidade instrumental, a civilização moderna associa o risco de um holocausto nuclear com os riscos da crescente destruição das bases naturais da sobrevivência humana . Nos países industrializados, os sinais mais visíveis da crise ambiental, expressão emblemática da transformação da natureza num simples objeto de exploração, começaram a se tornar um assunto de destaque político no decorrer dos anos 70. Nessa época, se multiplicavam movimentos ecológicos que rejeitavam qualquer tentativa de encarar a chuva ácida, a destruição das florestas, os perigos do uso da fusão nuclear para a geração de energia elétrica, a poluição dos rios e dos oceanos etc., como simples efeitos colaterais do progresso social e econômico. Para fundamentar os seus argumentos, não entravam numa linha de romantização da natureza. Pelo contrário! Na medida em que chamavam, por exemplo, atenção para os riscos da energia nuclear civil, argumentavam, com a mesma rigidez científica, tal como os defensores do seu uso. Ou seja, ao aplicarem a dúvida como instrumento-mor do trabalho científico à própria ciência, demonstravam que esta última é, na realidade, uma das fontes da criação dos problemas sócio-ambientais que a sociedade moderna enfrenta (Beck 1986, 1993, 1997). Assim, não contribuíram apenas para colocar por terra o “nimbo da ciência como autoridade racional inatacável” (Bonss, Hartmann, cit. in: Beck 1986, p. 276, tradução, T.M.) expresso, de maneira emblemática, no citado lema “a ciência pesquisa, a tecnologia executa e o homem obedece.” Ao mesmo tempo, diminuíram a distância entre especialistas e leigos que, no âmbito das disputas políticas sobre os rumos que a sociedade deve tomar, tendia a se transformar numa concorrência entre especialistas que se diferenciavam, via de regra, por diferentes racionalidades normativas.
Mesmo levando em conta que, inicialmente, os mencionados movimentos ecológicos foram ridicularizados por uma boa parte dos ocupantes das “catedrais do poder no setor privado, na ciência e no Estado”(Beck 1993, p. 158, tradução T.M.) como irracionais e irresponsáveis em relação aos imperativos econômicos da sociedade moderna; dentro de pouco tempo, as temáticas, levantadas por eles, acabaram sendo reconhecidas como os desafios do futuro por crescentes segmentos sociais em países como Alemanha, Holanda, França etc. A partir desse reconhecimento que fez com que a questão ambiental entrasse, cada vez mais, nas instituições públicas e no setor privado do hemisfério Norte, nasce o discurso da racionalidade ecológica centrado, por sua vez, na necessidade imperativa de reduzir, drasticamente, a destruição do meio-ambiente. No entanto, apesar de ganhar, sobretudo depois da ECO 92, um alto nível de consenso político no mundo inteiro,os seus resultados práticos são reconhecidamente tênues por um motivo muito claro! Na realidade, a racionalidade ecológica é uma das filhas mais recentes do espírito utilitarista do protestantismo (Eder, 1986). Se este, historicamente, substituiu a imagem da natureza como alter ego do homem pela visão da natureza como objeto-inimigo, hoje ele tenta evitar os excessos no uso do capital natural através da aplicação da mesma racionalidade instrumental pela qual acabou ganhando o mundo desde o século XVII(1).
Em outras palavras, a sua preocupação, portanto, não é o questionamento da transformação do concreto real em elementos quantificáveis e homogêneos . Pelo contrário! Considerando que o seu interesse se concentra, primordialmente, na implementação de programas de custo-benefício que, da mesma maneira em que devem dar mais atenção ao ambiente natural usado, precisam garantir a continuidade do processo de acumulação, a racionalidade ecológica procura combater o diabo com o próprio Belzebú.

III
Do ponto de vista de sua lógica, a racionalidade ecológica lembra as críticas do uso extensivo da mão-de-obra no inicio do sistema industrial que insistiam em medidas de proteção social para o operariado. Mesmo considerando que, em parte, tenham sido “o resultado de uma guerra civil de longa duração, mais ou menos oculta, entre a classe capitalista e a classe trabalhadora”, (Marx 1980, p. 341), a regulamentação da jornada de trabalho e, de um modo geral, a implementação de políticas sociais em benefício dos assalariados, nos países do capitalismo avançado, caracterizaram a sociedade moderna como formação social revelando uma tendência de civilização das relações de poder. No entanto, cabe realçar que no processo da constituição desta formação “a civilização do poder e os excessos do poder cresceram concomitantemente” (Eder 1988, p. 206 traduçào T.M.), fazendo com que a primeira, pelo fato de não existir nenhuma correlação automática entre evolução técnica e evolução cultural, esteja sempre ameaçada(2).
Além disso, por mais que ideais da sociedade ocidental, como os direitos humanos, sempre tenham sido apresentados como referencial universal, este, para a maioria da população mundial, tem ,até hoje, a importância prática de uma fata morgana. No âmbito do sistema global, os bolsões da pobreza e da miséria urbana e rural continuam, sem sombra de dúvida, concentrados nas regiões periféricas. Estas abrigam aproximadamente quatro quintos da população mundial que têm acesso à apenas um quinto da riqueza mundial gerada e reproduzem condições sócio-econômicas nas quais a violência está, literalmente, enraizada(3).
Nestas condições de pobreza, o discurso da modernidade, que visa à proteção da mão-de-obra através da regulamentação da relação entre capital e trabalho e políticas sociais eficazes para os desprivilegiados, é, na melhor das hipóteses, uma vaga promessa. Uma promessa, aliás, que tem sido difundida pelo próprio capitalismo em seu processo de internacionalização, mas que este mesmo, em virtude de suas próprias tendências de polarização, está impedido de colocar em prática. Trata-se de uma contradição que fez com que, nos países (semi) periféricos, os esforços de desenvolvimento tenham se concretizado através de crescentes intervenções da esfera política na mobilização e na alocação dos recursos técnico-financeiros. Esta tendência de politização do desafio desenvolvimentista ganhou o seu primeiro auge dramático na Rússia, um país semi-periférico (Wallerstein), onde o Estado acabou se responsabilizando, inteiramente, pelo projeto da industrialização do país. No entanto, cabe lembrar que a historia deste mesmo projeto, enquanto projeto nacional, se inicia com o outubro vermelho de 1917, concebido por Lenin como ponto de partida de uma revolução internacional (!) que pretendia abraçar, também, as regiões periféricas do “cosmo burguês” (Marx).
Neste contexto, cabe lembrar que, já em 1913, Lenin tinha abordado “o despertar da Ásia e a luta do proletariado europeu pelo poder como os dois elementos que caracterizam a nova era da historia mundial do século XX.”(Lenin 1970, p. 112, tradução T.M.) E em 1920, a Comintern, durante o seu segundo congresso, ratificou, por iniciativa do delegado indiano Roy, que “os países atrasados com o apoio do proletariado dos países mais avançados em termos econômicos podem alcançar a ordem soviética sem passar, necessariamente, pela fase do desenvolvimento capitalista.” (Lenin 1970, p. 340, tradução T.M.)
No entanto, por mais que a revolução russa, pelo fato de ter entrado no palco histórico “na fronteira entre a Europa e a Ásia, entre o Oeste e o Leste”, (Lenin, 1970, p. 334, tradução T.M.), estava abrindo as suas portas para os atores antiimperialistas do pólo periférico do capitalismo mundial; a sua vitória definitiva dependia – como Lenin e Trotski não cansaram de realçar - da iniciativa revolucionária do proletariado de países economicamente mais avançados como a Alemanha. Dela esperavam o apoio técnico-organizacional, do qual a jovem União Soviética tanto precisava para poder avançar na implantação do seu projeto revolucionário.
Contudo, o proletariado do velho continente e as suas organizações socialistas não cumpriram a missão que lhes era atribuída(4).
Confrontado com este quadro, o arquiteto principal do outubro vermelho (1970 : 868, tradução T.M) levanta, em janeiro de 1923, um ano antes de sua morte, a seguinte reflexão:
“Será que um povo que entrou numa situação revolucionária, uma situação que surgiu na primeira guerra imperialista, será que este povo, devido à falta de perspectivas para seu futuro, não poderia se jogar numa luta para conquistar condições não-comuns que servissem de base para os seus avanços civilizatórios. (…) Mas, por que não pensar que a completa falta de perspectivas da nossa situação que, aliás, multiplicou as forças dos operários e dos camponeses, abrirá a possibilidade de desenvolver uma via de transição para a criação dos fundamentos básicos da civilização que difere dos caminhos de todos os outros Estados da Europa ocidental? Se para a constituição do socialismo um determinado nível cultural é indispensável (mesmo considerando que ninguém possa dizer em que, exatamente, este nível cultural consiste, já que é diferente em qualquer um dos Estados europeus ocidentais), porque nós não deveríamos começar a conquistar este nível através de uma via revolucionária e avançar e alcançar os outros povos na base do poder dos operários e dos camponeses e da ordem soviética?” (tradução e destaque T.M)
O que esta argumentação antecipa é a idéia de definir e implementar uma via não capitalista ao desenvolvimento que, no caso da Rússia, proporcionou as condições para que o país pudesse montar o seu parque industrial em tempo recorde, rechaçar, a partir daí, a invasão das tropas nazistas e sair da segunda guerra mundial como super- potência militar. De qualquer maneira, a experiência soviética fez com que, depois de 1945, no então chamado Terceiro Mundo, a questão do desenvolvimento se apresentasse como desafio que, à primeira vista, girava em torno da escolha entre economia planejada e economia de mercado. No entanto, por mais que a guerra fria e o conflito sistêmico entre Oeste e Leste tenham transformado a discussão sobre estes dois modelos num embate político bastante duro, os defensores de ambos encaravam a integração plena dos países menos desenvolvidos na órbita da civilização industrial como conditio sine qua non para acabar, de uma vez por todas, com as suas condições de subdesenvolvimento (fome, miséria, infra-estruturas precárias nas áreas de educação e saúde, etc.). Ou seja: divergiram sobre o caminho da viagem, mas compartilharam o seu destino. Assim, torna-se claro que o “industrialismo capitalista” e o “industrialismo socialista”, como André Gorz (1983, p. 14) chama a estas duas versões da civilização industrial, são, nitidamente, produtos do Zeitgeist moderno que procura superar todos os modos de vida e de pensamento que não se enquadram em sua lógica instrumental e acaba serrando, literalmente, a árvore na qual a espécie humana está sentada. Neste sentido, se apresentavam como irmãos inimigos que precisavam ser lembrados - pela acelerada destruição das bases naturais da vida humana(5) - de que a “dialética do iluminismo” não é um malabarismo de conceitos filosóficos, mas uma dialética mortalmente real.

IV

Dirigido ao Clube de Roma, o relatório “Os limites do Crescimento” (Meadows 1972), levantou a preocupação de que o aumento da população mundial e da produção industrial poderiam comprometer, definitivamente, a capacidade reprodutiva dos ecossistemas deste planeta.
Publicado em 29 línguas, acabou gerando um vendaval dentro de uma sociedade internacional cujos opinion leaders tinham se acostumado a considerar altas taxas de crescimento da economia como ponto de partida indispensável para solucionar os problemas sociais, no mundo inteiro. Diante disso, não surpreende que, nos países dos centros do capitalismo, tanto os sindicatos dos trabalhadores como as representações do setor empresarial encarassem a idéia de uma estratégia de crescimento zero em benefício do meio-ambiente como algo absolutamente inaceitável. E, tão pouco foi surpreendente que os líderes dos países periféricos entendessem as preocupações ambientalistas, vindas da metrópole, como uma ameaça que visava congelar a posição subalterna do Sul no âmbito da divisão internacional de trabalho. É bom lembrar que, em 1972, foi realizada, em Estocolmo, a primeira Conferência sobre Meio Ambiente onde a desconfiança dos atores da periferia se manifestou pelo fato de que todos, independentemente de suas ideologias e práticas políticas, compartilhavam a posição da delegação brasileira que definiu a destruição ambiental e os seus custos como problema do hemisfério Norte.
Uma das respostas do Sul ao Clube de Roma veio em 1976, através da Fundação Bariloche da Argentina (Herrera et al. 1976) que, em seu relatório sobre “Os limites da Miséria”, focalizou a distância entre os países ricos e pobres como principal problema da comunidade internacional, rejeitando, categoricamente, a idéia da existência de limites físico-ambientais do crescimento econômico; insistiu, também, que o Sul, pelo bem do seu desenvolvimento, teria que apostar todas as suas fichas na apropriação dos mais avançados conhecimentos científicos e tecnológicos(6).
Por outro lado, diante da queda expressiva de sua participação no comércio internacional nas duas primeiras décadas depois da 2ª Guerra Mundial, os países do Sul concentraram as suas esperanças desenvolvimentistas dos anos 70 na idéia da criação de uma Nova Ordem Econômica Internacional que foi levada à frente pela UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development). Partiram do princípio de que os países do Norte deveriam compensar financeiramente a história do (neo) colonialismo e os consequentes danos sócio-econômicos e ecológicos que causou ao Sul. Além disso, insistiram na redução das tarifas alfandegárias para facilitar o fluxo de mercadorias do Sul ao Norte e na transferência de capital e de tecnologias avançadas como insumos fundamentais para a construção de um mundo sócio-economicamente mais equilibrado.
No entanto, tais cobranças, devido às expressivas resistências do Norte, se revelaram como um sonho de uma noite de verão. Além disso, os discursos terceiro-mundistas que pregaram a necessidade de um Sul unido contra as imposições dos centros do capitalismo, começaram a fazer água, na medida em que os países deste hemisfério passaram por um processo de diferenciação dos seus perfis sócio-econômicos. Estes, por sua vez, se manifestam pelo contraste entre um minúsculo grupo de Newly Industrialized Countries (NICS), cujos líderes anseiam a entrada definitiva no clube seleto dos países economicamente avançados, e os assim chamados Least Developed Countries (LDCS) que dependem, cada vez mais, de transferências externas. É importante realçar que esta diferenciação está intimamente ligada às formas e à dinâmica da globalização do capitalismo depois da 2ª Guerra Mundial. Nos anos 60, foram as empresas transnacionais que envolveram uma parte do hemisfério Sul em sua rede internacional de produção criando, inclusive pela primeira vez na historia do capitalismo, uma competição direta entre a mão de obra protegida das metrópoles e a força de trabalho barata e altamente disponível da periferia. (Mitschein 1981) Uma década depois, foi o capital financeiro que , a partir da queda da taxa de lucro nos países centrais, procurou opções de aplicação rentável nos países da periferia do mercado mundial. Fortaleceu, desta maneira, a idéia da “industrialização endividada”. Esta, por sua vez, foi colocada em xeque pela crise da dívida externa que eclodiu em 1982 e iniciou a “década perdida” para o desenvolvimento da América Latina, por exemplo. Foi justamente nesta época que o neoliberalismo começou a tornar-se ideologia hegemônica no mundo inteiro. As conseqüências nefastas de sua implementação na periferia capitalista e naqueles países que fizeram parte do socialismo real, estão sendo abordadas, de maneira eloqüente, por Naomi Klein (2007) em seu livro sobre a ascensão do disaster capitalism.
Por outro lado, por mais que o fracasso da tentativa da UNCTAD de criar condições para o estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional tenha mostrado, de maneira nítida, o poder de mando do hemisfério Norte, o crescente gap social entre centros e regiões periféricas do mercado mundial e a crise ecológica global continuavam presentes na pauta da política internacional. Em parte, a sua discussão foi até incentivada por atores políticos dos países industrializados. Neste contexto, vale mencionar o relatório “Global 2000”, dirigido ao Presidente Jimmy Carter e o relatório “Norte Sul”, presidido por Willy Brandt. “Precisamos desenvolver”, escreveu o político alemão (1980, p. 18, tradução e destaque T.M.) “uma responsabilidade mundial comum, que se baseia nas experiências das comunidades regionais.”
Contudo, no âmbito desta discussão, foi o Relatório da “Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento” que ganhou a importância maior. Criada em dezembro 1983 por iniciativa do Secretário Geral das Nações Unidas e presidida por Gro Harlem Brundtland da Noruega, esta comissão apresentou, quatro anos depois, uma fórmula que, pelo fato de exigir das nações ricas “ estilos de vida compatíveis com os recursos ecológicos deste planeta” como conditio sine qua non para que as nações pobres possam alcançar um crescimento econômico que permite o atendimento de suas necessidades básicas, aproximou os “ambientalistas” do Norte e os “desenvolvimentistas” do Sul. Amenizou, com a sua abordagem sobre o desenvolvimento sustentável, as linhas de conflito que tinham sido levantadas a partir dos relatórios sobre os “Limites do Crescimento” do Clube de Roma e os “Limites da Miséria” da Fundação Bariloche. Mas, na arena política mundial, entrou como referencial sem peso operacional já que, pouco tempo antes da ECO 92, o assim chamado Consenso de Washington tinha transformado o enfoque neoliberal num referencial quase bíblico dos políticos e tecno-burocratas do mundo inteiro fazendo com que, durante duas décadas, os custos sociais e ambientais da globalização fossem flagrantemente desprezados(7).
Esta situação mudou depois do desmoronamento do “Muro de Wallstreet” que proporcionou a maior crise econômica que o mundo inteiro já enfrentou desde a “grande depressão” de 1929.
No entanto, cabe perguntar se, diante do meltdown do fundamentalismo de mercado, as políticas (inter) nacionais que procuram enfrentar as suas conseqüências focalizarão, de fato (!), as flagrantes desigualdades sociais e a destruição das bases naturais da sobrevivência humana em nível global !? De qualquer maneira, o número das vozes que estão externando a sua convicção de que o funcionamento do atual sistema internacional não esteja mais dando conta do recado, tem aumentado.
Segundo Fareed Zakaria, editor do Newsweek International, e Klaus Schwab, fundador e chefe executivo do Forum Econômico Mundial (Special Edition / Issues 2009 Newsweek, December 2008 – February 2009),“urgent reform is needed. China, India and Brazil must be better integrated into the Great-Powers Club. Washington needs a radical new strategy in the Middle East. A newly aggressive Russia must be dealt with head-on. The Islamic world cries out for reform. (…) That means accepting a planet with far more players from newly powerful developing states, who won’t settle for second-class citizenship and must be part of any solution, whether political, economical or social. This will require greater openness and cooperation. (…) It is time for a different, global conversation.”
Por outro lado, de acordo com Silvio Caccia Bava, editor do Le Monde Diplomatique Brasil (Dezembro 2008, p.3) a atual crise é uma crise sistêmica. “Não podem ser vistas como isoladas as crises de segurança alimentar, ambiental, energética e financeira. (…) O planeta não aguenta mais o grau de degradação ambiental que o atual modo de produção impõe. (…) Abre-se um novo período de disputas e negociações. (…) A principal tarefa da esquerda é propor um mundo novo, pensar uma nova sociedade, construir uma utopia, construir uma narrativa – com passado, presente e futuro – que seja capaz de prefigurar uma nova sociedade.”
Tratam-se de dois enfoques bastante distintos. O primeiro, por mais que esteja realçando a necessidade de integrar os “newly powerful developing states” no sistema internacional, dentro de uma visão política que realça a importância do mutilateralismo, mantém, no fundo, a perspectiva do “business as usual.” O segundo insiste que a resposta à crise sistêmica pela qual passa a nossa assim chamada vila global tem que ser a superação do atual modelo civilizatório. Na tradição do Fórum Social Mundial: “Um Novo Mundo É Possível.”
Neste contexto, como se enquadra a América Latina que, na trajetória da forçada “integração de todas as civilizações num único momento histórico” (Darcy Ribeiro 1971, p. tradução T.M.) revela uma série de particularidades? Apresenta-se como primeira região não-européia que foi integrada, de maneira sistemática (!), no sistema internacional nascido no “longo século XVI” (F. Braudel). Como território colonizado foi, também, o primeiro que alcançou, no início do século XIX, a sua independência política. Ganhou, historicamente, realce entre os late-comers (neo) coloniais com as suas políticas de substituição de importação. Transformou-se “no primeiro laboratório de teste da Escola de Chicago” (Klein 2007, p. 634, tradução T.M.) e acabou se tornando, nos últimos anos do século passado, uma avançada linha de frente política contra as imposições do fundamentalismo de mercado(8).
Nesta discussão sobre novas referências de desenvolvimento para a América Latina que vão além das tentações do mimetismo, é preciso focalizar , de maneira mais sistemática, a Amazônia. Por duas razões, fundamentalmente: de um lado, porque os processos de sua ocupação acabaram levando, literalmente, à queima da maior riqueza da qual os seus habitantes dispunham, isto é, a sua biodiversidade que, segundo Jeremy Rifkin, representará no século XXI o que representava o petróleo no século XX. Por outro, porque o uso sustentável dos recursos naturais da Amazônia pressupõe a invenção de um modelo civilizatório tropical que não se enquadra nas propostas desenvolvimentistas que oprimem os cérebros de uma boa parte dos políticos e planejadores latino-americanos, até hoje.

V

Historicamente, o Estado na América Latina se torna demiurgo desenvolvimentista a partir da crise dos regimes oligárquicos que, depois da independência política no inicio do século XIX, têm consolidado a função do subcontinente como fornecedor de matérias primas no âmbito da divisão internacional de trabalho. Sofrendo as consequências das interrupções dos fluxos econômicos internacionais, ocasionadas pelas duas guerras mundiais, estes regimes perdem a sua capacidade de garantir a reprodução da síntese social e acabam sendo substituídos por governos nacional-populistas. Estes, por sua vez, encontram a sua âncora política em blocos sociais cujos representantes entendem o Estado como instrumento indispensável para “matar dois coelhos com uma cajadada só”, a saber: ampliar e diversificar a base produtiva do país e levar em conta os anseios dos setores populares por justiça social.
Desta maneira, o desenvolvimentismo se posiciona, de um lado, contra uma elite oligárquica que define a sua identidade cultural a partir do passado colonial(9), aceita o seu papel como counterpart do capital estrangeiro e trata a questão social como uma “questão de polícia” ( Washington Luis, Presidente do Brasil 1926-1930) . Por outro, abre as janelas para os ventos da modernização industrial, insiste na criação de mais emprego, ocupação e renda, mas, além de não colocar em prática a prometida modernidade, leva, repetidas vezes, à posse de governos de exceção que visam a neutralização da organização política das classes populares, dificultando, desta maneira, a constituição de uma esfera pública como palco de exercício da cidadania.
No entanto, o que os regimes oligárquicos e os desenvolvimentistas, apesar de suas profundas diferenças, têm em comum é a negação clara e aberta dos modos de vida autóctones que se reproduzem à margem da relação político-econômica entre metrópole e periferia. Se as novas elites nacionais dos regimes oligárquicos desprezaram, por exemplo, a civilização andina dos tempos pré-colombianos, isto se explica pela sua identificação com o passado colonial(10).
E se os protagonistas da modernização até hoje não costumam perder tempo com a consideração das relações altamente sinérgicas que muitos povos tradicionais têm desenvolvido com o seu meio natural em ecossistemas altamente complexos e delicados, isto se deve ao axioma modernizante segundo o qual os modos de vida que não se enquadram nos moldes da racionalidade instrumental representam obstáculos para o futuro e, consequentemente,, para o progresso social e econômico da nação.
No entanto, por mais que as sociedades latino-americanas possam tentar reprimir a história de sua colonização e as experiências traumáticas que ela proporcionou; já que não se deixa extirpar como um simples tumor, ela sobrevive nas profundidades da consciência coletiva e, em momentos aparentemente calmos, nos quais ninguém está esperando por turbulência alguma , possa vir a tona e se manifestar como a explosão de um vulcão. Nos países andinos, a crescente mobilização dos povos ancestrais e a sua capacidade de transformar a sua memória num referencial para definir e reivindicar anseios e perspectivas futuros, bem como a sua entrada no palco político, em seus respectivos ambientes nacionais, refletem, nitidamente, esta dinâmica histórica que escapa, obviamente, do foco das bússolas positivistas. Desta memória faz parte a cosmovisão andina que Julio Valladolid (1993, p.78) aborda, magistralmente, com as seguintes palavras:
“La Cosmovisión Andina es otra manera de “vivir” el mundo que se inicia con la llegada del hombre a los Andes hace 20.000 años. (…) En este medio natural de gran densidad, diversidad e variabilidad climática y con los suelos de relieve accidentado, tuvo lugar un prolongado proceso de interacciones entre un medio pluriecológico y variable con las múltiplas etnias que aún les habitan. Como consecuencia de ello se desarrolló un modo de “ver” y sobre todo de “vivir” y “sentir” el mundo, que si bien es singular en cada lugar, tiene caraterísticas generales que en conjunto tipifican este modo de concebir la vida. Para los andinos el mundo es una totalidad viva. No se comprende a las partes separadas del todo (…) Esta totalidad está confirmada por la comunidad natural pluriecológica constituída por el suelo, clima, água, animales, plantas y todo el paisaje en general, por la comunidad humana multiétnica que comprende a los diferentes pueblos que viven en los Andes y por la comunidad de deidades telúricas e celestes, a quienes se reconoce el carácter de Huaca, de sagrado en el sentido de tenerles mayor respeto, por haber vivido y visto mucho más y por haber acompañado a nuestros ancestros, porque nos acompaña y acompañará a los hijos de nuestros hijos. Estas comunidades se encuentran relacionadas a través de un continuo y activo diálogo, reciprocidad e efectiva redestribución. Cada comunidad es equivalente a cualquier otra; tienen todas el mismo valor, ninguna vale más y por lo tanto todas son importantes, merecen respeto y consideración (…).”
Desprezada tanto pelas elites oligárquicas como pelos protagonistas da modernização, esta cosmovisão do Planalto Andino mantém acesa a chama da diversidade ambiental e sócio-cultural como fonte de vida. Ao insistir na constituição de “uma armonía com bienestar para todas las comunidades de la naturaleza” (ibid, p. 81), se posiciona contra a cosmologia ocidental que encara a planta, simplesmente, como uma “máquina transformadora de energia”(ibid, p. 70) e procura, desde os tempos de Francis Bacon (1561-1626) “extrair da natureza, sob tortura, todos os seus segredos.” (cit. in: Capra 1982, p. 52)
É importante realçar que a cosmovisão andina acabou influenciando a nova Carta Magna do Equador que reconhece, explicitamente, a natureza como sujeito de direito. (Acosta 2008) Aqui se pode alegar que, na América Latina, há tantos direitos constitucionais que estão sendo desrespeitados e, por esta razão, neste caso específico, dificilmente, haveria diferença. Trata-se de um raciocínio entendível. No entanto, o que ele negligência, é que o conteúdo da nova constituição equatoriana reflete, em grande parte, o despertar e as lutas político-culturais das populações ancestrais deste país. Neste sentido, a sua verdade não se enquadra na tradição filosófica do adaequatio intellectus atque rei. A sua verdade é subversiva pelo fato de ansiar pela implementação de relações sociais emancipadas que, no início deste século XXI e, mais especificamente no contexto andino-amazônico, estão intrinsecamente ligadas à necessidade imperiosa de fazer da utopia do direito à diversidade sócio-cultural uma realidade concreta. Por outro lado, pelo fato de representarem menos do que 1% da população da Pan-Amazônia, os indígenas desta região não “acumularam” o poder político dos seus irmãos andinos que, como mostra a história recente do Equador e da Bolívia, “tiram e põem” Presidentes com uma velocidade que impressionou o mundo inteiro. Entretanto, apesar disso, não pode haver dúvida que, mesmo na Amazônia, eles conseguiram, sobretudo em questões que dizem respeito à demarcação e à defesa de suas terras, aumentar consideravelmente o seu poder de barganha frente às instituições públicas. Neste sentido, no início deste século XXI as populações indígenas tanto do Planalto Andino como da Planície Amazônica são, em sua grande maioria, protagonistas sui generis das lutas pela proteção da diversidade sócio-ecológica. Estas lutas, por sua vez, fazem parte de um contexto global cujos atores que dispõem de poder político e econômico continuam, via de regra, avançando para todos os cantos deste planeta com o seu “evangelho”da racionalidade instrumental.

VI

Diferentemente do Planalto Andino, a Amazônia, se abstrairmos o rápido “intermezzo” do boom da borracha, passa somente a partir dos anos sessenta do século passado por um processo de integração mais sistemática ao sistema econômico global.
Mesmo considerando que os militares dos países que compartilham a região levantaram cedo a questão de sua segurança enquanto parte integral e inviolável do território nacional; as abordagens geopolíticas se tornaram algo mais concreto e factível apenas no momento em que os imperativos econômicos dos pólos centrais da acumulação exigiram a definição de novas políticas, nas quais a ocupação definitiva do espaço amazônico, a então “periferia não-integrada” (Berta Becker), acabou alcançando o status de uma empreitada promissória. Esta tendência ganhou contornos paradigmáticos no Brasil que, além de dispor da economia mais potente e dinâmica de toda a América Latina, abocanha com dois terços da Bacia Amazônica um território de 4.982.000 km2 que, pela sua baixa densidade populacional, acabou atraindo, através de vias espontâneas e dirigidas, uma parte da população excedente de outras regiões do país. Esta transferência dos “homens sem terra para a terra sem homens” serviu, certamente, como instrumento de mitigação das tensões sociais no Sul, no Sudeste ou no Nordeste do Brasil. No entanto, o ponto crucial da valorização estratégica e econômica da Amazônia estava ligado, primordialmente, aos gargalos que enfrentou a industrialização retardatária do país. Neste contexto, vale lembrar o “II Plano de Nacional de Desenvolvimento. Programa de Ação do Governo para a Amazônia 1975-1979” (Sudam 1976, p. 52) onde podemos ler:
“A política de desenvolvimento, no caso da Amazônia, consideradas as características do quadro de recursos naturais em que opera a economia regional, orientar-se-á para a consecução do objetivo maior do II PND, isto é, a manutenção de altas taxas do PIB, através de ampla contribuição em relação ao setor de comercio exterior. Em relação a esse objetivo, a Região de Fronteira Tropical pode contribuir significativamente através de geração de divisas, resultantes de exportações; de economia de divisas, produzindo insumos básicos para a Região Centro-Sul, hoje importados; e finalmente pela liberação de produto exportável, comprometida hoje por demanda interna.”
Nestes termos, a política desenvolvimentista brasileira expressa sua ligação à teoria do ciclo de endividamento (Chenery, Strout 1966) que parte do princípio de que a aplicação produtiva de financiamentos externos gera um volume exportável de bens pelo qual o futuro pagamento do principal e dos juros dos créditos tomados pode ser garantido. Pelo menos nos anos 70, este enfoque veio ao encontro da crescente disponibilidade de capital dinheiro no setor bancário transnacional gerada, por sua vez, pela queda da taxa de lucro nos países industrializados e a conseqüente redução dos investimentos produtivos nesta parte do mundo, bem como pelo aumento dos preços do petróleo bruto por parte dos membros da OPEC. Tudo isto acabou levando a uma oferta de recursos financeiros privados com custos extremamente baixos. Desta maneira, juntaram-se a “fome com a vontade de comer”: o setor financeiro internacional correndo atrás de aplicações rentáveis no mundo inteiro e o Brasil tentando acelerar a sua entrada definitiva no clube dos países altamente industrializados.
Por outro lado, os planejadores brasileiros estavam, sem sombra de dúvida, conscientes do fato de que a sua estratégia de priorizar, na Amazônia, projetos minerais, agropecuários, madeireiros, hidroelétricos etc., dotados, segundo eles, por vantagens comparativos no âmbito da economia (inter) nacional, traria, fatalmente, desequilíbrios para a sociedade regional. Realçaram que estes precisavam ser corrigidos por intervenções da política pública para que a Região pudesse “participar das vantagens e utilidades que cederá ao país e ao exterior.” (ibid, p. 56) No entanto, a partir da crise da dívida externa que eclode em 1982 e coincide com a democratização dos sistemas políticos do Brasil e dos outros países da América Latina, ganham forma as força políticas neoliberais que submetem o Estado nacional a um forte tratamento de emagrecimento fazendo com que o então poderoso “colonizador” da fronteira amazônica não dispusesse dos recursos técnico-financeiros para colocar em prática a anunciada correção dos desequilíbrios sócio-econômicos e ambientais. Em conseqüência disso, a Amazônia, cantada em verso e prosa nos anos 60 e 70 como Região solução dos problemas do desenvolvimento brasileiro, entra na contra-mão de um processo de profunda polarização sócio-espacial(11), por sua vez, responsável pela configuração de um cenário de destruição da natureza interna e externa dos amazônidas que envolve:
— tensões permanentes e choques violentos entre os mais diversos atores sociais (pecuaristas, madeireiros, sem terra, populações tradicionais, pequenos produtores rurais, mineradoras etc.) que estão disputando a apropriação dos recursos naturais;
— um crescente êxodo rural que se traduz na informalização do trabalho e na favelização dos espaços nas zonas urbanas e, last but not least,
— altas taxas de desmatamento que transformaram o Brasil no maior emissor de gases de carbono causados pela destruição de florestas tropicais

VII

Foi no final dos anos 80, no âmbito da preparação e da realização da ECO 92, que o Grupo dos Sete Países Mais Industrializados (G7) descobriu a importância do Trópico Úmido para o futuro da humanidade. A partir daí, acabou lançando, com o “Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil”, uma série de iniciativas (projetos de pesquisa, projetos demonstrativos etc.) que, sem dúvida alguma, foram relevantes para a discussão do desenvolvimento sustentável no contexto regional. No entanto, pouco contribuíram para reverter as tendências da destruição sócio-ambiental na Amazônia. Aliás, por uma razão muito clara. Reservaram este desafio aos agentes públicos do Brasil que, na última década do século XX, ainda estavam enfrentando, a duras penas, os impactos da crise da divida externa. Em conseqüência disso, se encontraram, na discussão sobre o futuro das florestais tropicais, entre a cruz e a espada. De um lado, precisavam se relacionar com movimentos ecológicos que lhes cobravam, por razões óbvias, mais presença no contexto amazônico, deixando bem claro que políticas de controle ambiental e de desenvolvimento sustentável em uma região de dimensões continentais, dificilmente poderiam ser implementadas com um Estado minimalista. Por outro, não podiam tapar os ouvidos diante das exigências dos grão-mestres do sistema financeiro internacional que deixavam bem claro o que esperavam de governos dos países em desenvolvimento: políticas de contenção dos gastos públicos para ampliar o raio de ação dos agentes de mercado. Em conseqüência disso, as instancias públicas do Brasil (e obviamente dos outros países que compartilham a Bacia Amazônica) enfrentavam dois tipos de demanda que só poderiam atender simultaneamente se soubessem “chupar cana e assobiar” ao mesmo tempo. Como não sabiam, tendiam a seguir, na prática, as receitas que vinham do lado econômico. Pela própria pressão que este exercia. Além disso, adotaram, no auge da hegemonia neoliberal, o discurso sobre a necessidade do desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Faz parte da complexidade deste quadro que os projetos pilotos, financiados, em grande parte, com recursos externos, incentivaram, no próprio contexto regional, abordagens críticas sobre os efeitos uniformizantes da civilização moderna que levaram, inclusive, à intensificação de estudos e discussões sobre as formas pelas quais as populações nativas da Amazônia manejavam e manejam os recursos do seu meio natural e sobre a possível importância de suas práticas históricas para o mundo contemporâneo. Faço questão de mencionar, neste contexto, o antropólogo norte-americano Darrel Posey (1984, 1992) então no Museu Paraense Emilio Goeldi , o geógrafo colombiano Conrado Benhur Ceron Solarte (1990) da Universidade de Nariño que, em sua tese de conclusão do Curso Internacional de Formação de Especialistas Universitários em Desenvolvimento de Áreas Amazônicas – FIPAM VII, realizado no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), aborda, de maneira brilhante, o manejo sustentável da floresta tropical pelos indígenas Awa Kwaiker e o agrônomo paraense Pedro Saviniano Miranda (1993, 1996, 1999) que, com o apoio de pesquisadores e técnicos locais, concebeu, no âmbito do Programa Pobreza e Meio Ambiente (POEMA) do Núcleo de Meio Ambiente (NUMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), um Sistema Agroflorestal (SAF) que “tomou de empréstimo” alguns aspectos da agricultura do povo Kayapó. O SAF do POEMA, chamado de “agricultura em andares”, foi testado em diversos Municípios do Pará e se tornou, no âmbito da cooperação entre o Brasil e o Equador, um insumo importante para a elaboração de um Sistema Agroflorestal para o Parque Sangay (Rivas 2000) envolvendo os indígenas Shuar da Província de Morona Santiago . (Marchán Brito 2000)
Tratam-se de iniciativas que começavam a brotar como sementes numa época, na qual uma boa parte das faculdades agrárias da região ainda referenciava a “revolução verde” como “solução padrão” e onde os defensores do “progresso a qualquer custo” costumavam denunciar atores regionais, que tivessem a ousadia de criticar as modalidades e a dinâmica da ocupação da Amazônia, como quinta coluna dos países industrializados.

VIII

Os atuais governos da Venezuela, do Brasil, da Bolívia e do Equador que se destacaram pelo sua oposição ao neoliberalismo, estão, conjuntamente, responsáveis por 81,38% da Bacia Amazônica. Herdaram um quadro complexo e complicado de ocupação regional, dominado, por sua vez, por tendências expressivas de polarização sócio-espacial. Faz parte desta herança o fato de que , em países como Equador ou Brasil, as “Amazônias” ganharam, de maneira crescente, importância para o processo de reprodução das economias nacionais.
No caso equatoriano, a sociedade toda depende do “ouro negro”do oriente (Varea 1995) e no Brasil, somente o Pará, ganha, através do setor mineral principalmente, hard cash para o país inteiro. Hoje, estes projetos são fatos consumados para qualquer governo. Pode-se discutir, atê, a partilha dos seus lucros entre o Estado nacional e os territórios onde funcionam. Mas, certamente, não a questão do seu “to be or not to be”.
Além disso, por mais que os governos de Hugo Chaves, Lula, Evo Morales e Rafael Corrêa tenham sido eleitos pela sua oposição às estratégias neoliberais; o discurso sobre a necessidade de resgatar o Estado como regulador efetivo das relações sociais não desfaz nem a lógica do funcionamento de uma sociedade altamente excludente nem as imposições do sistema econômico global(12).
No que diz respeito a estas últimas, a partir da atual crise econômica que partiu dos Estados Unidos e acabou afetando a assim chamada global village como um todo, elas, certamente, não favorecem o raio de ação dos atuais governos latino-americanos de centro-esquerda.
Mas mesmo partindo da hipótese de que, apesar de todas estas imponderabilidades, o elenco das instituições públicas esteja, a médio prazo, ganhando musculatura técnica e financeira; será que este Estado que supera a anemia que as receitas neoliberais lhe causaram, não terá melhores condições para combater os profundos desequilíbrios sócio-econômicos e ecológicos que a ocupação da Amazônia proporcionou? Trata-se de uma esperança que tem que ser avaliada com cautela. Ela, dificilmente, ganha substância na medida em que as políticas governamentais não ultrapassem o viés desenvolvimentista e o seu projeto de realizar cinqüenta anos de progresso sócio-econômico em cinco. Neste caso, o Estado fortalecido, do ponto de vista de sua capacidade de intervenção, não proporcionará uma sustentabilidade maior entre sociedade e natureza. Pelo contrário: O que as experiências do desenvolvimento retardatário mostram, com nitidez, é que nestes processos o Estado assume o papel do colonizador para dentro que, em nome do progresso da nação, passa, de acordo com os seus planos centralizados, por cima das diversidades sócio-culturais e ambientais dos territórios locais/regionais.
Neste sentido, os Estados latino-americanos de um modo geral e, sobretudo, aqueles que compartilham a Bacia Amazônica, se encontram numa encruzilhada histórica: Ou seguem o caminho desenvolvimentista que, no decorrer de sua trajetória,se revelou como um cheque sem fundo para a maior parte da população do subcontinente e gerou, num curto prazo de tempo, conseqüências extremamente prejudiciais para o maior centro da diversidade biológica e cultural deste planeta. Ou investem a sua energia na implementação e na consolidação de um projeto político inovador, capaz de enfrentar, concomitantemente, dois desafios cruciais: no âmbito de suas respectivas fronteiras nacionais definem e implementam estratégias que interrelacionam, como prioridade máxima, a redução das flagrantes desigualdades sócias com o estabelecimento de relações mais sustentáveis entre os homens e o seu meio natural. E no contexto pan-amazônico/ latino-americano insistem na criação de instituições financeiras autônomas, meios de comunicação independentes, instrumentos próprios de controle dos recursos naturais, um sistema de segurança militar e a ampliação e o aprimoramento das capacidades técnico-científicas. Em favor da segunda alternativa que visa a consolidação de perspectivas operacionais de cooperação interregional, há dois argumentos fundamentais: 1. Considerando que, do ponto de vista ecológico, a Bacia Amazônica é uma realidade indivisível, a sua administração sustentável depende de parcerias estreitas entre os Estados que a ocupam; 2. nenhum dos Estados envolvidos – e isto vale, também , para o Brasil que, “gigante pela própria natureza”, abocanha dois terços da Amazônia - tem condições para superar a dinâmica do cenário de destruição sócio-ambiental individualmente.
Por outro lado, no que diz respeito à segunda opção, ela precisa ser colocada em prática entre vizinhos bastante desiguais do ponto de vista de suas estruturas sócio-econômicas e de suas capacidades de produção: basta mencionar que o Brasil gera um PIB de aproximadamente US$ 1.8 trilhões de (dado de 2007) que é trinta vezes maior do que o do Equador. Contudo, se a viabilização de um bloco regional pode ser considerada, em tese, como instrumento de combate à polarização sócio-espacial que a lógica do desenvolvimento desigual (re) produz, neste caso é preciso definir e fazer valer políticas interregionais que procuram superar o principio do tratamento igual dos desiguais que, abstraindo de raras exceções, prevalece no sistema econômico global. Um sistema, aliás, que, fatalmente, privilegia os países economicamente mais fortes, já que impede o estabelecimento de um fair trade, que deve garantir, de qualquer maneira para todos os envolvidos, o pagamento dos custos do processo produtivo levando em conta uma reprodução digna da mão de obra bem como as necessidades da regeneração dos recursos naturais aproveitados. Partimos do principio de que há, fundamentalmente, duas razões para que os pesos pesados da sócio-economia latino-americana levarem a sério a definição e a implementação de regras de reciprocidade com os mais frágeis. Primeiro, considerando que o contexto internacional está se tornando cada vez mais complexo e competitivo, a criação de blocos regionais se tornou um desafio imperativo que, dificilmente, será enfrentado com êxito se os menos iguais se sentirem tratados de acordo com o igualitarismo da lei que, como diria Anatole France, proíbe tanto aos ricos como aos pobres de mendigarem na rua, roubarem pão ou dormirem em baixo das pontes.
Segundo, regras de reciprocidade entre desiguais são, ao mesmo tempo, de fundamental importância para o consumo interno, uma vez que, em toda a América Latina, se estabeleceram , historicamente, colonialismos internos entre os pólos da acumulação e as suas “hinterlândias” que se reproduzem , via de regra, com o apoio daqueles que ocupam os postos centrais dos comandos a política nacional. Ou seja: No âmbito das contradições e dos conflitos que caracterizam a dinâmica social em cada país, torna-se necessário construir um Estado que é forte do ponto de vista de sua capacidade de transformar o direito à educação, saúde e segurança alimentar em realidade para todos os cidadãos definindo, inclusive, este desafio como prioridade número 1 das políticas de segurança pública, mas que, ao mesmo tempo, “cultiva” o incentivo à implementação de cadeias (re)produtivas sustentáveis em nível local para poder enfrentar, com afinco, as profundas polarizações sócio-espaciais entre e dentro das regiões do território nacional. Sem esta segunda dimensão, a política, depois de sua mercantilização durante o reino do fundamentalismo de mercado, corre o risco de passar por um processo de “estatização” no sentido de se tornar objeto principal das decisões de uma tecnoburocracia corporativa que, ciosa de sua valorização, define, ex cátedra, o caminho a ser seguido pelo país inteiro dificultando, assim, a constituição de ambientes locais favoráveis à implementação de cadeias (re)produtivas endógenas.
Por outro lado, estratégias de proteção e de uso sustentável das áreas amazônicas, certamente, teriam mais chances para prosperarem, se fizessem parte de projetos nacionais e interregionais que entendem como seu overall goal a implementação de biocivilizações que visam “o uso múltiplo da biomassa terrestre e aquática como alimentos humanos, ração para animais, adubos verdes, bioenergias, materiais de construção, fibras, plásticos e demais bioprodutos da química verde e das biorefenerias do futuro, fármacos e biocosméticos.”(Sachs, 2009) Esta concepção de biocivilização, para os paises tropicais, sem dúvida, uma perspectiva altamente promissora de desenvolvimento, não abriria apenas a chance de associar a saída da era das energias fosseis com a geração de ocupação, emprego e renda em escalas maiores. Ela, também, faz pensar na hipótese de que, caso se estivesse se reproduzindo na base do uso sistemático dos seus recursos naturais renováveis, as sociedades latino-americanas poderiam se sentir mais motivadas para resgatar as suas culturas indígenas e o respeito milenar que as mesmas têm desenvolvido pela diversidade sócio-ambiental.

IX
Nos países andino-amazônicos, as culturas indígenas que, ainda, representam um elenco de memórias vivas e presentes no cotidiano lembrando, inclusive, da intíma relação das raízes da vida social com o mundo natural, continuam resistindo ao reino da racionalidade instrumental do “inevitável branco” (Alejo Carpentier) que “conquistou o globo geograficamente, o plainou culturalmente e está na iminência de esgotar os seus recursos naturais.”(Schmidt 1994, p. 362, tradução T.M.)
No entanto, de que maneira as sociedades latino-americanas usarão, de fato, esta memória é, certamente, uma incógnita. Neste contexto, cabe destacar que a civilização ocidental e a sua tendência de mercantilizar todas as expressões sócio-culturais estão presentes, de uma ou de outra forma, nos corações e nas mentes da população das regiões periféricas do mercado mundial fazendo com que os sonhos do desenvolvimento mimético, por mais que se realizem apenas para minorias sociais nesta parte do nosso planeta, não tenham perdido a sua atratividade. No que diz respeito à perpetuação destes sonhos, ela, em grande parte, está ligada ao fato de que os países altamente industrializados continuam pregando as virtudes santificadas da sustentabilidade e, ao mesmo tempo, insistem em praticar os vícios antiecológicos do american/european way of life. Desta maneira, além de transformarem as suas próprias discussões sobre o futuro da humanidade numa “controvérsia sobre o programa musical no Titanic” (Amery 2005, p. 165, tradução T.M.), mostram, nitidamente, que no hemisfério Sul “as soluções” dificilmente virão do Norte. Precisam ser concebidas e implementadas em casa! No caso da Amazônia, e mais especificamente da Amazônia brasileira, cabe dividir os problemas a serem enfrentados e “solucionados”, em dois grandes blocos que envolvem:
— a crescente concentração demográfica da população regional em zonas urbanas, que além de traduzir a dinâmica da polarização sócio-espacial do processo de ocupação da região, introduz um elenco de desafios sócio-econômicos (favelização do espaço, informalização do trabalho, aumento da vulnerabilidade social e da violência etc.) que, nas condições atuais, supera de longe a capacidade gerencial dos administradores regionais, e
— a necessidade imperiosa de desenvolver e implementar estratégias de preservação e de manejo que permitam manter a floresta em pé - campo, aliás, onde é preciso mais ação e menos discurso.
Contudo, não há falta de opções promissoras de uso dos recursos naturais para enfrentar esses dois blocos de problemas. A título de exemplo, fazemos questão de mencionar, como possíveis linhas de ação,
— a implementação de estratégias de segurança alimentar para as populações de baixa renda no campo e na cidade através do fortalecimento do empreendedorismo popular,
— políticas de incentivo à criação de cadeias produtivas que usem sustentavelmente a rica biodiversidade para as demandas dos mercados (inter) nacionais,
— programas de aproveitamento sistemático do potencial da pesca e da piscicultura diante da insuficiente oferta internacional de peixes e, last but not least,
— iniciativas de reflorestamento em áreas alteradas bem como políticas de avoided deforestation que, diante da necessidade global da mitigação do efeito estufa, representam, em princípio, uma nova fonte de mobilização de recursos financeiros em benefício da sociedade amazônica(13).
No entanto, a existência de oportunidades, evidentemente, não diz nada sobre as potencialidades de sua realização. Considerando que a realidade amazônica coloca lado a lado as tendências da destruição sócio-ambiental com opções de desenvolvimento que abrem perspectivas de um futuro virtualmente mais sustentável, os decision makers das administrações públicas precisam institucionalizar um padrão novo e inovador de aprendizagem social que põe os atores da sociedade regional à altura dos problemas e das possíveis soluções em seus respectivos territórios. Isto exige, de qualquer maneira, pesados investimentos públicos nas áreas da educação, da ciência e da tecnologia.
Neste contexto, cabe lembrar os baixos níveis educacionais da população das faixas etárias de 7 até 24 anos e as altas taxas do analfabetismo pleno e funcional da população adulta, demonstrando que, em toda a Amazônia brasileira, os sistemas de educação formal das instituições municipais e estaduais continuam andando “a passos de cágado”. Além disso, o próprio conteúdo curricular, elaborado por especialistas das cidades, distancia , via de regra, as crianças e os adolescentes da natureza e do saber empírico, do seu ambiente local no interior, pregando, assim, na melhor das hipóteses de forma involuntária, a superioridade da cultura urbana, contribuindo,desta maneira , para o êxodo rural que normalmente transforma os pobres do campo em ocupantes dos espaços favelizados dos sítios urbanos.Cabe acrescentar, ainda, que os investimentos públicos em linhas de educação profissionalizante que devem focalizar e priorizar as vocações econômicas das microrregiões são, para dizer o mínimo, tímidos e insuficientes. Trata-se de um dado extremamente preocupante uma vez que, diante do vigente quadro da economia da Amazônia, o empreendedorismo popular e associativo, por mais que atualmente represente “uma muda ainda frágil, que, certamente, precisa de muita água e bastante adubo para virar uma planta resistente e vigorosa,”(Mitschein, Chaves 2008, p. 184), deve ser encarado como um dos instrumentos fundamentais para combater, em médio prazo, o sub-emprego e desemprego estruturais.
No que concerne à ciência e à tecnologia, os responsáveis por estas áreas no contexto regional vivem reclamando que toda a Amazônia brasileira dispõe de menos doutores do que a Universidade de São Paulo(USP). Referem-se, desta maneira, às disparidades interregionais que caracterizam o Brasil de um modo geral e contra as quais, em seu campo específico e com toda a razão, estão mobilizando as suas energias. No entanto, no contexto da capacitação e da promoção de jovens cientistas e tecnólogos é preciso ter cautela! Por mais que seja indiscutível que a qualificação do quadro técnico-científico nas universidades amazônicas tem que avançar; ao mesmo tempo é imperioso dar aos estudantes e docentes de todas as disciplinas a condição de se familiarizarem com a historia da racionalidade instrumental e a sua íntima ligação com os poderes econômico e político - ou, como diriam Adorno e Horkheimer, com a historia da relação entre a “razão obsoleta” e a “dominação cega” – e com o mais recente processo de secularização da ciência cuja essência Ulrick Beck (1986, p. 271, tradução T.M.) descreve com as seguintes palavras.
“De um lado, a aspiração explicativa da ciência se refugiou na hipótese, ou seja na suposição sujeita à revogação. Por outro, a realidade se dissipou em dados que estão sendo produzidos. Desta maneira, os fatos – as antigas peças celestiais da realidade – são nada mais do que respostas a perguntas que poderiam ter sido formuladas de outra forma. São produtos, feitos através de regras, que definem, o que deve ser levado em conta e o que deve ser desconsiderado. Um outro computador, um outro especialista, um outro instituto - uma outra “realidade”. Seria um milagre se fosse diferente, um milagre e não ciência. (…) A ciência se torna humana. Ela está cheia de equívocos e erros. (…) Quando três cientistas estão juntos, se chocam quinze opiniões.”
Na medida em que a comunidade acadêmica na Amazônia se relacionar, de maneira sistemática, com a história da relação entre “a razão obsoleta e a dominação cega” e com as implicações da secularização da ciência, ela, em tese, abrirá perspectivas para:
1. criar cada vez mais anticorpos contra a “doença do academicismo mimético” que se manifesta na vontade do mais periférico querer copiar aqueles que estão, aparentemente, mais próximos dos centros científicos e tecnológicos do mundo;
2. internalizar, de fato, que, como escrevem os autores indianos Chand e Gupta (1998, p. 19), “no particular knowledge system, dominant or otherwise, is adequate for ensuring the sustainibility of development”.
Desta maneira, o mundo acadêmico poderia se sentir sensibilizado a reconhecer as limitações da “mathesis universalis” de René Descartes que, historicamente, abre as portas para a ciência moderna e que, pelo fato de encarar o saber tradicional como algo que “em sua totalidade está errado” (Welsch 1988, p. 71),incentiva avaliações das culturas tradicionais como coisa do passado que “atrapalha” o desenvolvimento de hoje. Daria, assim, um passo importante para institucionalizar, de fato e de maneira operativa, as bases de um diálogo produtivo com as populações indígenas cujos antepassados manejaram milenarmente os ecossistemas tropicais sem deteriorá-los. A construção de um diálogo deste tipo, em tese, é benéfica para ambos os lados. Os representantes da comunidade técnico-científica estariam aptos para descobrir, com mais facilidade, a sua vocação amazônica assumindo, inclusive, como imperativo categórico a defesa do direito à diversidade sócio-cultural e ambiental. E os povos tradicionais poderiam receber o apoio dos primeiros na elaboração e implementação de projetos que associassem a questão do desenvolvimento local em suas terras com dois problemas que são de alcance global, já que atingem a humanidade como um todo, a saber: a mitigação de mudanças climáticas e a proteção da biodiversidade. Certamente, poderiam construir, assim, alianças importantes em defesa da diversidade da vida amazônica.

X

Realçamos, anteriormente, que no inicio deste século XXI as populações indígenas tanto do Planalto Andino como da Planície Amazônica são, em sua grande maioria, protagonistas sui generis das lutas pela proteção da diversidade sócio-ecológica. Destacamos, também, que em países como Bolívia, Equador ou Peru conseguiram se transformar em atores sociais que conquistaram uma enorme capacidade para colocar os seus anseios na pauta política de suas sociedades nacionais.
No Brasil, pelo fato dos indígenas representarem apenas uma parte minúscula de toda a população, a situação é diferente. Especificamente na Amazônia brasileira, que abriga a maior parte dos povos tradicionais deste país, os antigos “donos do Brasil” precisarão de parcerias mutuamente benéficas com aqueles segmentos da sociedade que procuram alternativas para o cenário da destruição sócio-ambiental do qual todos os amazônidas ficaram reféns.
Por outro lado, o necessário diálogo entre os representantes dos sistemas de conhecimento da sociedade ocidental e do saber tradicional dos indígenas – a “ciência Kayapó”, como diria Darrel Posey - deve envolver o incentivo a intercâmbios entre as próprias populações indígenas do Planalto Andino e da Planície Amazônica. Ambas vivem em dois macro-ecossitemas que estão intimamente interrelacionados, uma vez que o maior rio do mundo está trazendo em seu leito as águas dos seus afluentes peruanos, equatorianos e bolivianos. Intercâmbios, aliás, que precisam levar em conta os aspectos da organização e da representação políticas. Pode-se imaginar que, para dar só um exemplo, trocas regulares de experiências entre o atual Secretário de Meio-Ambiente do Município de Santa Luzia do Pará da etnia Tembé e os seus colegas indígenas das mais diversas alcaldias equatorianas - no tocante às suas respectivas convivências com os processos administrativos da sociedade ocidentalizada - abririam, dentro de uma perspectiva de valorização da diversidade sócio-ambiental, novos horizontes de comunicação intercultural para todos os envolvidos. Assim, fazemos questão de encerrar estas reflexões com a seguinte colocação de Alberto Acosta (2008, p. 18), que foi Deputado e Presidente da Assembléia Constituinte do Equador, país de berço andino e amazônico por excelência:
“La responsabilidad,” escreve o economista ecuatoriano, “es grande e compleja. Estamos ante el imperativo de construir democraticamente uma sociedad realmente democrática, fortificada em valores de libertad, igualdad y responsabilidad, praticante de sus obligaciones, incluyente, equitativa, justa respeitosa de la vida. Una sociedad “que incorpore el anticapitalismo sin planificación burocrática y con pluralismo político”, para ponerlo en palabras de Claudio Katz. Una sociedad en la que sea posible que todos y todas tengamos iguales posibilidades e oportunidades, donde lo individual y lo colectivo coexistan, donde la racionalidad economica se reconcilie con la ética y el sentido común.” Ou seja: Uma sociedade que permita que o direito à diversidade cultural e ambiental possa se tornar realidade!

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(1) Segundo Claus Offe (1983, p. 86), do ponto de vista ecológico, as revoluções se apresentam menos como “locomotivas da história mundial” (Karl Marx) do que como uma tentativa do gênero humano, que está viajando neste trem, de poder sair dele através de uma “puxada do freio de emergência” (Walter Benjamin).Entretanto, no trem da racionalidade ecológica não há freios de emergência.

(2) O fascismo europeu que se dirigiu, especificamente, contra a liberdade de organização política e sindical do operariado é um eloqüente exemplo disso.

(3) Segundo dados do Banco Mundial, entre 1980 e 2001 a pobreza absoluta cresceu na África de 40 para 47%; no resto do mundo baixou para 21%. A primeira vista, trata-se de um sucesso considerável em apenas duas décadas. No entanto, é preciso ter cautela com esta interpretação. Por uma razão muito simples. Na discussão sobre poverty alleviation, a diferenciação entre pobreza absoluta (extrema) e pobreza relativa (moderada) que tem como critério o viver com menos de 1 ou menos de 2 $US por dia, é estatísticamente relevante porque permite separar 1,1 bilhões de pessoas que estão sujeitas à pobreza absoluta de 1,7 bilhões que sobrevivem com uma renda diária de menos do que 2 $US. Além disso, é útil, do ponto de vista político, uma vez que permite declarar, com mais facilidade, resultados de sucesso. Entretanto, o que vale para ambas as situações que envolvem 42% da tripulação da nossa assim chamada Vila Global, é uma enorme vulnerabilidade social que ganha dimensões mais dramáticas nas áreas urbanas. Neste contexto, é importante lembrar que, segundo o UN-Habitat, as favelas do hemisfério Sul dão abrigo a um terço de toda a população urbana deste planeta e recebem, anualmente, mais de 27 milhões de pessoas.

(4) A socialdemocracia européia, em sua maioria, fez questão de condenar a revolução bolchevista como heresia, já que, segundo os seus representantes, as forças produtivas na Rússia não estavam maduras suficientemente para iniciar a construção de uma sociedade socialista. Introduziram, assim, no conceito da maturidade, como diria Max Horkheimer, uma profunda dose de infâmia. “Para alguém, que está sendo levado à forca,” escrevem Oskar Negt e Alexander Kluge (1981, p. 567, tradução T.M.) com relação a esta colocação do filósofo alemão, “a idéia de que a sua situação não esteja madura para a rebelião serve para nada. Tentar resistir, para ele, independe da avaliação intelectual que faz da sua situação histórica ou do seu estágio de desenvolvimento (…). Para ele, é a última chance para salvar-se e, certamente, tentará resistir contra o seu destino se puder. E uma trajetória histórica envolve, de forma dramática e não-dramática, inúmeras situações concretas deste tipo”. Na realidade, a história da União Soviética, já nos primeiros anos de sua existência, se apresenta como acúmulo ofegante de situações, nas quais, para os próprios revolucionários, a forca sempre estava a vista. Vale lembrar a paz de Brest-Litowsk imposta pelo imperialismo alemão, a luta ferrenha entre os diversos grupos da esquerda que acabou levando ao atentado contra Lenin em 1918, a guerra civil, as difíceis relações de troca entre campo e cidade bem como o peso do isolamento do país no âmbito internacional. Foi Rosa Luxemburg que, por mais que tenha criticado as políticas repressivas dos bolchevistas, não pôde ser acusada desta postura de infâmia. “O que a guerra e a revolução russa têm demonstrado”, ela escreve em 1918, “não é a imaturidade da Rússia e sim a imaturidade do proletariado alemão no que diz respeito às suas missões históricas. Destacar isto com nitidez é a primeira tarefa de uma abordagem crítica da Revolução Russa. O destino da revolução estava completamente dependente dos acontecimentos internacionais”. (Luxemburg 1970 : 164, tradução e destaque T.M.)

(5) No caso da União Soviética, esta crise foi negligenciada até os anos 80 do século passado. Ainda nessa fase, a política oficial continuava impregnada, segundo Alexej Jablokow (1988, tradução T.M.), por uma expressiva dose de “ignorância e aventurismo ecológicos”, e isso, apesar do fato de que, naquele momento, “não se encontrava nenhuma região importante do país sem sérios problemas ecológicos.” (ibid, p. 310) Essa situação está, obviamente, ligada à já mencionada acumulação socialista primitiva que não permitiu uma efetiva democratização da sociedade soviética, transformando, inclusive, o marxismo numa teoria de modernização que colocou em xeque a ligação umbilical entre democracia e socialismo que para Marx e Engels era algo inquestionável

(6) Esta polêmica entre o Clube de Roma e a Fundação Bariloche mostra, de forma nítida, que os candidatos ao desenvolvimento retardatário têm, por razões óbvias, a tendência de encarar ciência e tecnologia, primordialmente, como instrumentos de superação do atraso das forças produtivas e não como uma das fontes dos problemas sócio-ambientais que se acumulam na sociedade moderna. Neste contexto, vale lembrar o exemplo da jovem União Soviética, cujos planejadores assumiram, com entusiasmo (!), o taylerismo e o fordismo dos Estados Unidos como receitas científicas avançadas para aumentar a disciplina e a produtividade do trabalho (Murray 1990) chegando atê a idéia de que, como realçou Trotzki em 1924, “ o bolchevismo americanizado conquistará e esmagará o americanismo imperialista.”(ibid, p. 94 tradução, T.M.) Trata-se de uma visão que, pelo fato de ter focalizado como obstáculo principal do progresso da humanidade as relações capitalistas de produção, levou à idéia ilusória de que a força produtiva ‘tecnologia/ciência`, entendida como um motor de desenvolvimento supostamente neutro do ponto de vista das relações sociais, proporcionaria a convergência entre capitalismo e socialismo, uma vez que os dois sistemas encontravam a sua base comum na civilização industrial que, independentemente das formas de sua regulação (planejamento central ou mercado), se alimentava das atividades técnico-científicas.

(7) Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões de pessoas sobrevivem diariamente com menos do que 2 US$. Além disso, a destruição dos ecossistemas deste planeta continua avançando com uma velocidade assustadora. Segundo relatório recente do WWF e da Sociedade Zoológica de Londres, em 2005 a pegada ecológica que mede o quanto os homens demandam da bioesfera, alcançou uma média mundial de 2,7 há que já superou em 30% a capacidade reprodutiva dos ecossistemas deste planeta. Nos países do hemisfério Norte, esta média foi com 6,5 ha quase três vezes maior do que a mencionada média mundial. (Folha de São Paulo, 29. 10. 2008)

(8) -Confesso que meu interesse nesta questão tem uma dimensão profundamente pessoal. Vivo e trabalho na Amazônia brasileira, mais especificamente em Belém, por muito tempo. Vivencio, portanto,as contradições de uma região que é o maior centro da biodiversidade deste planeta e, ao mesmo tempo no contexto do sistema global, periferia da periferia latino-americana.

(9) - Segundo José Carlos Mariategui (cit. em Mires 1980,p.32, tradução T.M.), certamente o pensador mais original entre os marxistas latino-americanos dos anos 20 do século passado, , “a história nacional (do Peru) começa para todos os nossos historiadores com a história colonial. Mesmo se não formularem isto de forma explícita, para o seu sentimento a história dos índios é pré-nacional. O conservadorismo consegue reconhecer apenas uma única identidade peruana: aquela que foi formada por Espanha e Roma.”

(10) - Do ponto de vista dos seus estilos de vida, estas elites podem ser chamadas de “herodinistas” (Arnold Toynbee): Viviam, como Herodes, com os pés em Israel e com a cabeça em Roma.

(11) - A título de exemplo: No Pará , um dos palcos principais do Modelo Amazônico de Desenvolvimento do mencionado II Plano de Desenvolvimento Nacional, os Municípios de Barcarena, Paraupebas e Oriximiná, pelo fato de concentrarem uma grande parte das atividades mineradoras deste Estado, contribuíram em 2003 com 12,3% para o seu PIB, abrigando apenas 2,9 % do seu efetivo demográfico. No mesmo ano, as meso-regiões Nordeste Paraense e Marajó, nas quais viviam no ano de referência, respectivamente, 23% e 6% de toda a população do Pará, produziram somente 12% e 3% do PIB. No entanto, o fato de que os mencionados Municipios representarem, no âmbito da sóocio-economia paraense, pólos de crescimento, não garante avanços substanciais na superação de suas profundas mazelas sociais. Em 2000, as suas taxas de analfabetismo eram maiores do que a de Soure, Município situado na Ilha de Marajó que tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano do Pará. (veja: Mitschein, Chaves 2008)

(12) - Mesmo considerando que iniciativas como o Programa Bolsa Família no Brasil aumentaram nos últimos anos, consideravelmente, as transferências financeiras para a população de baixa renda; em 2006, o Governo Federal desembolsou 36,7% dos recursos do Orçamento da União para o pagamento dos encargos da divida interna e externa e apenas 7,25% para as pastas da saúde, da educação e do meio ambiente.

(13) - Neste contexto, cabe fazer referência ao povo Tembé da Reserva Indígena do Alto Rio Guamá (RIAG) que, em parceria com a FUNAI, Ministério Público Federal-Pa e a Universidade Federal do Pará, deslanchou uma negociação com a empresa C-Trade sobre desmatamento evitado no mercado voluntário de carbono nos Estados Unidos. (Diário do Pará, 19.04.2009, A6 Belém).

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11 respostas para “ Barbárie ou O Que? Sobre o Futuro da Espécie Humana no Século XXI ”

  1. Maurício Brusadin disse:

    “Se quisermos ter menos lixo, precisamos rever nosso paradigma de felicidade humana. Ter menos lixo significa ter mais qualidade, menos quantidade, mais cultura, menos símbolos de status, mais esportes, menos material esportivo, mais tempo para as crianças, menos dinheiro trocado, mais animação, menos tecnologia de diversão, mais carinho e menos presente.”
    Gilnreiner, 1992

    Antes de iniciar meus singelos comentários sobre o texto do Professor Thomas, gostaria de agradecer o convite para participar dos debates “on line” promovidos pelo POEMA. São iniciativas como estas que permitem uma aproximação da esfera do conhecimento com a sociedade, diminuindo as distâncias entre os saberes e este deveria ser objetivo principal das Universidades Públicas no Brasil.
    O título do artigo nos chamou a atenção, pois nos remete à discussão de uma antiga dicotomia entre a razão iluminista com seus postulados totalitários e a utopia da busca pela sobrevivência da diversidade sócio-cultural dos povos e, neste aspecto, o artigo nos chama a atenção sobre o papel da ciência cuja concepção entende a natureza como simples objeto de exploração. Sob este prisma, penso que estamos diante de uma encruzilhada, pois, se de um lado podemos somar inúmeras melhorias que este saber possibilitou à humanidade, também é possível afirmar que este mesmo conhecimento forneceu instrumento de dominação poderosíssimo. Julgo que a pergunta a ser respondida encontra-se no diálogo entre Einstein e Newton, do escritor Friedrich Duerrenmatt, relatado no artigo no qual, em certo momento da peça, em uma das falas de Einstein, ele sugere uma saída: “Fornecemos à humanidade enormes instrumentos de poder. Isto nos dá o direito de cobrar condições”.
    A provocação que faço a este grupo de discussão, com base neste artigo, é quais seriam estas condições? Minha sugestão é que o primeiro passo seja definir quais valores a produção do saber vale a pena, queremos uma ciência que busque única e exclusivamente a reprodução de um modelo que não serve aos interesses coletivos, interessa-nos uma ciência com uma visão cartesiana pela qual, em nome do lucro a idéia de liberdade cria uma sensação de que podemos tudo?
    Dentro da mesma discussão, o artigo nos chama atenção sobre o discurso da racionalidade ecológica que, mesmo propondo uma inversão de alguns valores, seu princípio básico mantém imutável os aspectos da racionalidade instrumental, pois a órbita em que está vinculada à continuidade dos processos de acumulação do capital e, sob este ponto de vista, o artigo traz à tona o problema, porém não aprofunda sobre quais perspectivas poderíamos inverter tal lógica, já que ambas as racionalidades são “filhas” do mesmo processo e, portanto, servem aos mesmos interesses.
    O segundo tema que nos chama atenção, no artigo, é o resgate da velha discussão entre desenvolvimentistas e ambientalistas e as diferentes visões entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos em relação à variável ambiental. Neste sentido, vale lembrar que os movimentos ambientalistas ganharam força substancial no pós-guerra, em função, principalmente, dos testes nucleares do rápido crescimento da indústria e do crescente consumo.
    Um marco importante desta discussão e pouco lembrado foi a Conferência de Founex (Suíça), em 1971, onde pela primeira vez levantou-se a idéia de integrar o meio ambiente às estratégias de desenvolvimento. Dessa data em diante, todos os encontros e conferências tiveram como eixo central a necessidade de impor limites ao crescimento, porém considero mais importante ainda o papel dos países subdesenvolvidos, incluindo o Brasil, que encaravam ou encaram a idéia como uma tentativa de paralisar o desenvolvimento através do controle da poluição industrial. Essa discussão merece nossa atenção, pois boa parte dos argumentos e contraargumentos apresentados no modelo Bariloche ainda estão presentes nas falas de nossas autoridades políticas.
    O artigo nos lembra também a discussão que permeou aqueles momentos. Vários cientistas latino-americanos, entre eles Hélio Jaguaribe, dentro da racionalidade instrumental, defenderam a tese que, ao invés de simular matematicamente o futuro do mundo nos próximos 50 ou 100 anos, mantidas as tendências da época, a pergunta central a ser respondida era a de como usar os recursos mundiais de forma mais eficiente para melhorar as condições de vida da humanidade. Assim sendo, eles acreditavam que os problemas mais importantes que a sociedade humana enfrenta não são os físicos como a poluição ou a exaustão de recursos naturais, mas os sociais e políticos decorrentes da distribuição desigual de riqueza e de poder entre as nações e dentro das nações, como se a deterioração do ambiente físico não fosse uma consequência inevitável do progresso da humanidade, mas o resultado de uma organização social baseada em valores destrutivo.
    Nesse sentido não foi de se estranhar que tanto a Economia Planejada, pilotada pelo Estado Soviético, quanto a economia de mercado alavancada pelos americanos admitissem que a civilização industrial seria uma forma de superação da miséria, e foi muito feliz a frase contida no artigo para exemplificar esta idéia, ambos os modelos divergiam sobre o caminho da viagem, mas compartilhavam do seu destino.
    Para entender melhor este dilema muito bem abordado no artigo, vale lembrar que o conceito de desenvolvimento econômico começou a ser utilizado a partir do final da 2ª Guerra, num contexto de formação de instituições mundiais de harmonização de interesses e de práticas econômicas, e isso tudo tinha como lastro da racionalidade instrumental uma teoria econômica que depositava, na ação regulatória do Estado, a possibilidade de manutenção de taxas de crescimento mais elevadas. O conceito possibilitou fundamento de uma ideologia altamente otimista que previa crescimento econômico indefinido, visto como um processo de utilização cada vez mais intensivo de capital, redução do uso de mão-de-obra e da utilização extensiva dos recursos naturais.
    Com este objetivo, uma das características centrais nele implícita era a total inconsciência das repercussões ambientais e da degradação ecológica derivada das atividades econômicas, que eram vistas como sistema fechado, sem limites em relação ao imput (energia e matérias primas) ou o output (poluição), e foi esta mesma ideologia que fundamentou a ação de organismos multilaterais de fomento, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano.
    A teoria econômica que constituiu a base ideológica desenvolvimentista foi o Keynesianismo. Sua principal peculiaridade deriva de um contexto forjado: a crise econômica de 1930, como base natural dos recursos,parecia ainda extremamente abundante, a energia era barata, não havia limites dos insumos necessários ao sistema e assim sendo, a questão natural ficou à margem da teoria econômica.
    Durante os “30 gloriosos” anos do pós guerra, foi possível manter níveis de crescimento em patamares elevados, mas o sintoma de crise reapareceu em formas diferentes nos países capitalistas e nos socialistas. Nos países de economia de mercado, o principal sintoma de uma profunda anomalia eram as tendências inflacionárias crônicas e uma queda dos níveis de crescimento, e a cada momento que tentava acionar mecanismos de estímulo de tipo Keynesiano, o resultado era o aumento das pressões inflacionárias em vez de crescimento. A lição extraída desse estado de coisas foi que o sistema deveria atuar radicalmente sobre seus custos e não sobre a demanda. A redução dos desperdícios – de material, de energia e de mão-de-obra – impôs-se como estratégica. Nos países socialistas, a situação era de colapso econômico, ambiental e social. Sem instrumentos de regulação fora do Estado, esse sistema naufragou sem possibilidade de acionar mecanismos de auto-correção.
    Como resultado desse quadro, renasce a concepção liberal, agora sob a égide do Neoliberalismo, como foi bem lembrado no artigo. Essa ideologia resgata o fundamentalismo de mercado, e aqui parece ser colocada a reflexão de maior importância no artigo comentado: este modelo enfrenta as flagrantes desigualdades sociais e a destruição das bases naturais da sobrevivência humana em nível Global?
    Concordo com o professor Thomas com relação ao otimismo do “aumento do número de vozes que estão externando a sua convicção de que o funcionamento do atual sistema internacional não esteja mais dando conta do recado, porém acredito que já sabemos o que não queremos, mas ao responder o que queremos, parece-me que ainda temos um longo caminho a percorrer.
    Com relação ao papel da esquerda na busca por esta resposta, temo que as saídas e os discursos anunciados trazem à tona a tese Keynesiana e, muitas vezes, os conceitos discutidos pelo grupo de Bariloche. Não precisamos ir muito longe para perceber que este parece ser o caminho defendido atualmente, pois, nos primeiros sinais da crise atual, o Governo Federal e o Governo do Estado de São Paulo tiveram a mesma reação Keynesiana, despendendo bilhões de recursos públicos na indústria automobilística, sem sequer exigir uma única contrapartida ambiental.
    Os economistas ecológicos até obtiveram algum êxito na crítica ao pensamento econômico convencional, no qual coexistem várias teorias que compartilham a mesmíssima visão de um sistema econômico fechado que não depende da biosfera. Porém, às vezes, me parece que eles têm idêntica ética voltada a uma suposta maximização do bem-estar da população atual, sem quaisquer considerações sobre limites ecológicos e sobre o bem-estar de gerações futuras. Esse é o denominador comum a todas as escolas, das mais ortodoxas às mais heterodoxas. Mesmo a crítica da economia ecológica ao cerne do pensamento convencional só foi até agora assimilada por uma ínfima minoria. No próprio artigo é possível averiguar que, apesar de alguns avanços, ainda estamos muito longe de uma alternativa, os dados da WWF sugerem que já superamos em 30% a capacidade reprodutiva dos ecossistemas do Planeta. E uma das razões está justamente nessa incipiência da formulação de alternativa que supere o que há de mais comum nas várias teorias macroeconômicas em voga.
    Após colocar claramente as discussões sobre a racionalidade Instrumental e as críticas aos modelos de desenvolvimento, o artigo nos faz uma ótima provocação: de que maneira os povos que não se enquadram nos moldes da racionalidade instrumental poderiam tornar-se autores do seu próprio destino.
    Como bem lembrou o Professor Thomas, o discurso ideológico sempre impôs como um grande obstáculo para o progresso social e econômico da nação que se opunha ao axioma modernizante, as experiências constatadas no artigo, como por exemplo dos povos andinos que influenciaram a Constituição Equatoriana a reconhecer a natureza como um sujeito de direito, nos fazem crer que é possível sonhar com as diversidades ecológica e sócio cultural.
    Neste sentido, compartilho com a proposta do artigo que ressalta as culturas indígenas, que sempre entenderam um mundo natural como berço de nossas raízes, como arma para enfrentar os dilemas da racionalidade instrumental. Resta saber qual será o espaço conquistado por estas diferentes abordagens críticas, será que nossa civilização está disposta a encarar de frente a uniformização que lhe foi imposta?
    A grande questão colocada no artigo é se o futuro será a prorrogação do passado, ou se vamos construir projetos inovadores? Alguns exemplos sobre os projetos implantados visando à construção de um modelo sustentável de desenvolvimento da Amazônia nos animam, porém é necessário não nos comportemos como um “ingênuo útil”; parto sempre do princípio que o capital não tem escrúpulos, quando ele se aproxima ou se apodera de idéias que nascem como sonhos no momento seguinte,ele mostra sua verdadeira face, veja o caso da Globalização, que era um antigo sonho humano, vivermos sem fronteiras, livres para trocar nossas diferentes formas de cultura; no entanto, o capital se apropriou do sonho e inverteu as prioridades. As mercadorias são livres para entrarem e saírem dos países, mas os seres humanos não. As culturas não foram trocadas e sim substituídas devemos trabalhar para que o sonho de um mundo sustentável não seja também roubado e depois tenha suas prioridades invertidas, isso já é possível ver na prática, ou alguém acredita que quando a coca-cola faz uma campanha para reciclagem ela não esta incentivando o consumo, será que realmente o Bradesco tem interesse na Amazônia Sustentável. Aqui fica minha provocação para discutirmos até onde podemos avançar nas idéias de diversidades sócio-cultural e ambiental sem fazermos crítica ao modelo capitalista.

    Maurício Brusadin
    Economista formado pela Unesp,
    Especialista em políticas públicas pela Escola de Governo,
    Mestre em Engenharia Urbana, pela Universidade Federal de São Carlos,
    Executiva Nacional do Partido Verde

  2. Adelaide Miranda disse:

    Ao pensar no futuro da humanidade há de se pensar no passado, analisando os diversos contextos históricos das diversas sociedades, a exemplo do que fez Thomas Mitschein em seu artigo.

    Do passado relatado e analisado de acordo com as prerrogativas presentes e futuras, pelo autor do artigo que inicia o debate on-line “Barbárie ou o que? Sobre o futuro da espécie humana no Século XXI”, observa-se uma forte tendência da humanidade em estabelecer feudos que, via de regra, favorecerão aos próprios perpetradores daquela iniciativa, assim como a seus associados. Trocando em miúdos, quero dizer, os homens fazem guerras, mudam os governos, os sistemas políticos, a ciência avança fenomenalmente, porém a sede de poder humana está sempre acima de qualquer filosofia, esta funcionando, então, como um remédio absolutamente placebo.

    Avança a ciência, a tecnologia supera todas as expectativas sonhadas pelo senso comum, o planeta está ficando repleto de pessoas, a terras para plantar e colher, pertencem a poucos. No caso específico do Brasil, fala-se em Reforma Agrária, mas como ela pode acontecer se os maiores latifundiários estão no poder? ou se não estão, submetem o poder público às suas vontades. Então, com o extermínio recorrente das populações tradicionais e suas culturas e o aumento da densidade demográfica nas metrópoles, causadas pelo êxodo rural, aumenta na mesma proporção, a marginalidade, posto que o poder público não está comprometido com o desenvolvimento, ou com o estado de bem-estar da população. A população, por sua vez, insuflada pela mídia, pede mudança das leis, pena de morte no Brasil, etc, etc. Mas a ferida parece incurável, pois se as leis mudarem favoráveis ao bem-estar público, os próprios detentores do poder serão sentenciados à cadeia, quiçá à pena de morte e eles não fariam isso consigo próprios, havemos de convir.

    Assim, o homem comum, trabalhador, pai de família, fica no meio do fogo cruzado entre o poder público e o poder paralelo originado das mazelas que o primeiro não extirpou. Este homem, não espera mais do futuro, além da barbárie, tema deste debate.

    Além de tudo o que se passa em nossa sociedade “civilizada”, vivemos a lamentar o que “essa” espécie humana está fazendo com este nosso já esculhambado planeta. A Amazônia sendo tema de discussões mundiais. Teme-se o extermínio da vida. Parece que a solução seria voltar ao primitivo, ao rudimentar, como já dizia Rousseau (grosso modo) “o homem em seu estado primitivo é puro, a sociedade é que o corrompe”. Até que ponto é interessante a permanência da vida humana neste planeta, se não se consegue encontrar soluções viáveis para essa permanência? Uso um tom pessimista proposital, pois quando se fala em desenvolvimento sustentável, fala-se de forma altamente coerente, mas a prática desse desenvolvimento não é aplicada pelas instituições que o sugerem. As instituições estão sob a gestão de pessoas e as pessoas sempre no afã de mais poder, limitam suas reais capacidades de realização pelo bem da humanidade. Então, fala-se de desenvolvimento sustentável, quando indústrias transnacionais lançam detritos nos rios amazônicos, poluindo-os, a despeito dos efeitos decorrentes dessa ação, que deixa populações inteiras sem o seu pão de cada dia. Esses efeitos, além de prejudicar sobremaneira essas populações, causam profundos prejuízos ao nosso ecosistema, pois matam os peixes e a vegetação ao redor. Mas, o contra-senso está sempre presente. As industrias são sempre bem recebidas. Nossas portas estão abertas para elas, para o “desenvolvimento” de nossa Região, ou para o aumento do montante de dinheiro nos cofres públicos.

    Não deveria, mas o termo Desenvolvimento Sustentável, tal qual o amor, parece mais poético que real. Tal qual o amor, o Desenvolvimento sustentável só passa a ser real quando vem acompanhado com uma ação correspondente e isso, tal qual o amor, só acontece de vez em quando, a exemplo da ação citada por Thomas Mitschein “(…) o geógrafo colombiano Conrado Benhur Ceron Solarte (1990) da Universidade de Nariño que, em sua tese de conclusão do Curso Internacional de Formação de Especialistas Universitários em Desenvolvimento de Áreas Amazônicas – FIPAM VII, realizado no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), aborda, de maneira brilhante, o manejo sustentável da floresta tropical pelos indígenas Awa Kwaiker e o agrônomo paraense Pedro Saviniano Miranda (1993, 1996, 1999) que, com o apoio de pesquisadores e técnicos locais, concebeu, no âmbito do Programa Pobreza e Meio Ambiente (POEMA) do Núcleo de Meio Ambiente (NUMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), um Sistema Agroflorestal (SAF) que “tomou de empréstimo” alguns aspectos da agricultura do povo Kayapó. O SAF do POEMA, chamado de “agricultura em andares”, foi testado em diversos Municípios do Pará e se tornou, no âmbito da cooperação entre o Brasil e o Equador, um insumo importante para a elaboração de um Sistema Agroflorestal para o Parque Sangay (Rivas 2000) envolvendo os indígenas Shuar da Província de Morona Santiago . (Marchán Brito 2000). Infelizmente essas ações são divulgadas apenas entre um pequeno grupo, ou seja, os que têm acesso aos sistemas de informação e fazem bom uso deles. Mas, felizmente, essas ações são possíveis.

    Aqui termino meus modestos comentários, desejando que este debate tenha o maior alcance possível, com a graça de Deus.

  3. Norbert Fenzl disse:

    Debate muito interessante. Lamentavelmente, por falta de tempo somente posso fazer uns breves comentários sobre os seguintes pontos que me chamaram atenção:
    1. O socialismo está vivo ou morto?
    O que chamávamos “socialismo real” de fato está morto. Entretanto, este tipo de “socialismo” existia muito mais nas nossas mentes do que como realidade social econômica e cultural. A revolução russa foi uma revolução de caráter anti-feudalista e nacional e União Soviética cumpriu um grande papel histórico no século passado. Ela quebrou a espinha dorsal do nazi-fascismo a um custo humano gigantesco e foi uma das principais forças motrizes da descolonialização do mundo. Isto já deve ser respeitado como obra histórica.
    Mas de fato não teve as mínimas condições de construir aquela nova sociedade que poderá substituir o capitalismo. Inclusive, isto já foi (de certa maneira) previsto pelo próprio Marx.
    O que certamente não morreu é o conjunto das idéias de uma sociedade mais justa e todos os valores de humanismo que sempre foram bases do ideário socialista. Pelo contrário, estes valores são indestrutíveis porque são elementos vitais da própria sobrevivência da humanidade. Sem a esperança e a incessante luta de milhões de humanos para um futuro melhor, a nossa espécie já teria desaparecida faz tempo.
    Inclusive, me parece que o ideário socialista esta ganhando forças após o desaparecimento d a polarização do mundo entre a URSS e os EUA e, sobretudo, depois da quebra geral do sistema financeiro mundial.
    Uma nova sociedade (seja ela chamada de socialista ou não) somente poderá surgir das entranhas da economia globalizada através da ação de uma sociedade civil global cada vez mais interligada e informada. É somente quando as forças produtivas do capitalismo forem desenvolvidas na sua plenitude, uma sociedade nova poderá surgir. Em outras palavras, o “socialismo” do futuro certamente será alguma forma de um “socialismo global”.
    Quero porem deixar bem claro… se o socialismo real está morto, o capitalismo real também não goza de nehuma saúde inevjável.
    2. A sustentabilidade da Amazônia é possível?
    É uma ilusão de achar que poderemos construir uma Amazônia sustentável num mundo insustentável. Por mais que a Amazônia tem um papel importante na regulação do clima mundial, enquanto haverá mercado no mundo para os produtos oriundos de atividades destrutivas da Amazônia, a destruição continuará. Assim, não adianta os que ilumidados especialistas europeus ou americanos nos digam como salvar a Amazônia, enquanto eles não são capazes de se tornar sustentáveis por seu lado.
    Isto dito, não significa em absoluto que não devemos e podemos fazer muita coisa para diminuir o ritmo da destruição e buscar alternativas econômicas mais adequadas e socialmente justas para a região. Agora, SUSTENTABILIDADE de fato, somente se TODOS os países cumprem com suas partes nesta enorme tarefa. E, como sabemos, desenvolvimento sustentável, somente será possível através de um MODO DE PRODUÇÂO sustentável. E aí tocamos exatamente na ferida principal do capitalismo….
    3. Sobre a última frase do documento inicial: fé em deus e a na tecnologia moderna de comunicação
    Com todo respeito às religiões e sentimentos religiosos, se fé em deus fosse suficiente para sairmos da barbárie, já estaríamos num outro patamar de desenvolvimento humano. Afinal, o que nunca faltou neste mundo são pessoas com fé em deus.
    No caso da tecnologia moderna de comunicação gostaria lembrar que as favelas mais miseráveis do mundo estão repletas de celulares e de internet.
    Agora certamente a tecnologia moderna de comunicação PODE ser um importante e poderoso instrumento de transformação social, na medida em que a sociedade civil se SERVE deste instrumento com estes objetivos. Há exemplos recentes importantes que isto seja possível. Agora, devemos ter consciência que a mesma tecnologia serve também para fortalecer exatamente as estruturas de poder que sustentam o atraso, as guerras, a miséria, enfim a barbárie.

  4. nayara livia disse:

    realmente concordo, quando se diz que as soluções que encontrarmos serão para resolver os problemas de nosso século e o amanhã nos trará novas questões conflituosas, cabe a nós não pensarmos nos problemas do amanhã e sim nos que nos aflige na atualidade, neste momento…o conhecimento nos leva a um grande poder cabe a nós saber usá-lo de forma consciente e sábia!!

  5. Parsifal Pontes disse:

    A Amazônia Desencantada

    01. O paraíso

    Quando criança, uma das minhas brincadeiras favoritas era pular no rio e mergulhar por baixo das manadas de caititus, para puxar-lhes pelas pernas.

    Sobrevivi, pois fazia aquilo com iraras e gatos maracajás, cujos dentes afiados se mostravam ameaçadores: sorte a minha que, como eu, eles não conseguiam mergulhar.

    O vale do Tocantins era um santuário onde as nossas roças eram plantadas em áreas sem cobertura vegetal densa, na beira do rio, que chamávamos de vazantes. As malhadeiras eram estiradas nas margens e os cardumes de peixes que lá ficavam eram as nossas proteínas.

    A floresta nos dava os remédios e os mitos necessários a nossa formação.

    02. A maçã

    Um dia chegaram homens dizendo que naquele vale seria plantada uma grande hidrelétrica. Ficamos maravilhados com os carros e tratores que começaram a rasgar a floresta abrindo estradas que trariam o progresso.

    A cidade começou a crescer e os carros nos seduziram: propriedades inteiras, de onde gerações tiraram o seu sustento, foram trocadas por camionetes e nós sequer sabíamos dirigi-las.

    Os que chegavam olhavam a mata densa, exuberante e intransponível e não sabiam como trabalhar na floresta: tinham que cortá-la abaixo.

    Derrubavam e tocavam fogo em tudo para plantar pasto ao gado, que chegava para substituir as pacas, os tatus, a onça, as cutias, o veado, a anta e os caititus.

    Os colonizadores, os nossos bwanas tropicais, diziam que éramos uns preguiçosos, pois vivíamos no meio do mato, tomando açaí, comendo peixe e nos afumentando com andiroba, ou seja lá que coisa fedorenta tivéssemos em uma cabaça.

    Meu pai era um caboclo desconfiado e não trocou a sua propriedade por uma camionete. Mas, não suportou a pressão dos novos amigos para derrubar a mata e fazer pasto: ele não queria ser chamado de preguiçoso e resolveu ser fazendeiro.

    Apressou-se ele para derrubar a mata também, aproveitando o incentivo do Governo: quem derrubasse tinha direito a adquirir o título de propriedade da terra que ocupava.

    03. O apocalipse

    Primeiro foram os machados a ceifar as imponentes castanheiras que Deus semeou nos vales do Tocantins: Sua mão foi boa, pois andávamos um mês inteiro no meio dos castanhais e eles não acabavam.

    Depois chegaram os motosserras. Ao cabo, para emprestar maior produtividade à empreita, tratores enormes eram amarrados à extremidade de correntes e, ao rugir dos caterpillars, a floresta vinha abaixo no atacado.

    Eu olhava aquele espetáculo ensimesmado: adorava o cheiro travoso da seiva verde derramando e sentia o gosto das folhas espremidas pelo arrasto bruto dos troncos, que rasgavam a terra úmida.

    Eu era um ignorante ao não intuir que presenciava um ecossistema sendo dizimado: não há floresta intransponível ou obstáculo natural que um madeireiro não possa transpor.

    Os animais silvestres entraram na ópera, como alimentos. Depois, como protagonizado, além de bois no pasto, não mais restou muita coisa: sumida a mata sumiu a vida que ela proporcionava.

    Nos dias de hoje, ver algo do que outrora foi a fauna dos vales da minha infância é uma visão de rara oportunidade: quase uma visagem.

    04. A sintomatologia

    Quarenta anos passados, já grisando os meus cabelos, constato, com amargura, que similar marcha de ocupação continua. Agora com variações semânticas na forma, mas com o mesmo conteúdo consecutivo: tenta-se eufemizar o equívoco trocando-lhe o substantivo.

    A lógica de exploração da Amazônia, através dos planos de desenvolvimento equivocadamente elaborados para a região, tem-se revelado um desastre ambiental.

    As políticas públicas mal versadas, com a finalidade cartesiana de gerar emprego e renda, não importando a qualidade e a sustentabilidade destas oportunidades, continuam a se impor.

    Os trabalhadores, que a esta lógica emprestam o suor, tangidos em migrações desordenadas, sem alternativa imediata para lhes prover a despensa, fazem coro com a marcha da insensatez.

    No meso sudeste do Pará, por exemplo, respira-se fumaça para que se somem 1.5 bilhão de reais ao PIB nacional, assados nas guseiras de Marabá. Grande parte desta soma advém da exploração ilegal da floresta, matéria prima que reduz o caldo que faz o gusa.

    Os carvoeiros vivem em condições medievais e desenvolvem um trabalho cuja valia é negativa: a atividade lhes toma cerca de 12 horas por dia; auferem menos de um real por hora e não têm nenhuma garantia trabalhista, pois produzem o insumo por sua conta e risco, aviados por empresas que conseguiram autorização para a queima.

    Esta terceirização resulta no aviltamento da remuneração e na precarização das condições de trabalho: a cadeia de produção do carvão é digna da mais amarga página que Steinbeck lavrou em “As vinhas da ira”.

    Quem sua no forno e impregna os pulmões de fuligem, inclusive crianças, recebe um ínfimo percentual do preço, numa clara desvalorização utilitarista da força de trabalho humano.

    Nesta história o capital fez pacto com o diabo e, em troca de uma riqueza que só a ele aproveita, entregou a alma do trabalhador.

    Demonstra-se assim, que as políticas de desenvolvimento da Amazônia têm sido elaboradas por alexandres que acham que cortando o nó górdio o estão desamarrando.

    No Pará, todos os projetos implantados só têm defesa strictu sensu: não passam de exportação de commodities, servem preferencialmente aos interesses exógenos e relegam o desenvolvimento regional a um contexto marginal.

    A fatia do Plano de Aceleração do Crescimento que coube ao Pará, sem críticas à necessidade das obras, contempla somente infra-estrutura física, atendendo o modelo ancião de privilegiar mais quem faz a obra do que a quem ela se destina.

    O bilhão de reais destinado não aparta um tostão ao fomento científico que poderia propiciar habilidade para desamarrar o nó: pesquisa e investimento em biotecnologia, onde está a verdadeira sustentabilidade amazônica.

    A pesquisa científica consecutiva, em modelos microrregionais de desenvolvimento, resguardadas as diversas peculiaridades de cada território e um banco de informações confiáveis de cada micro sistema ambiental, aliados à infra-estrutura civil: estes são os instrumentos tecnológicos e de gestão que precisamos para o desenvolvimento sustentável.

    Mas, o diapasão continua a ser, trocadas as vestes, o império dos tratores que rugem e, ao insistirmos nesta falta de competência para acasalarmos a exploração dos recursos naturais com a agenda ambiental, estaremos fadados a cortar um nó górdio todos os dias.

    05. A aventura etílica

    A mais recente tentativa de redenção econômica da Amazônia é a produção do etanol. Mais uma vez a falácia se repete: esta aventura econômica serve mais ao todo do que a parte.

    Promete-se que tudo será feito com responsabilidade ambiental, como se fosse possível tal cumprimento.

    Não é possível, pois a lógica continua irretocável: a floresta só tem valor no dente da serra de fita ou incinerada. Em pé ela só serve para índio ou ecologista.

    O que ainda nos vale é que, intui-se, convenceu-se o mundo ser o etanol uma via temerária para produção de energia, enquanto subtrai a oferta de alimentos, que poderiam ser produzidos, em maior quantidade, na mesma área.

    São necessários 20 milhões de hectares de milho para produzir um milhão de barris de etanol. Esta proporção não está sendo considerada de forma conseqüente: a mudança de destinação da plantação, de alimento para combustível, elevará o preço daquele, que terá diminuído o seu objeto.

    Como a soja, o milho, a cana e outros que movimentarão os carros ao invés de irem à mesa, tornar-se-ão commodities, correremos o risco de termos a colher vazia antes de a levarmos à boca.

    Além disto, como o mundo consome combustível sem pisar no freio, e o mercado consumidor de energia tem mais valia, seria inevitável o avanço das plantações em áreas virgens, pressionando ainda mais o passivo ambiental já estocado.

    O capital é inconseqüente e ágil quando enxerga valia, e o Estado é lento e inexpressivo para domá-lo.

    O que estancou, por exemplo, a sanha das guseiras foi a crise econômica mundial e não qualquer política de contenção do Estado.

    O sensato seria implementar alternativas já óbvias de energia, que, na cadeia de elaboração não legam passivos ambientais tão extensos, como a energia eólica e a manipulação atômica segura, que ainda é tabu, ou pura inconveniência comercial inconfessável.

    06. A constatação

    Segundo dados divulgados pelo Governo Federal, o desmatamento na Amazônia vem diminuindo, mas, urge que ele pare de uma vez.

    O que já foi posto a pique já oferece espaço suficiente para gerar a riqueza pretendida, se explorado com tecnologia conseqüente.

    Em 2004 a área desmatada na Amazônica foi de 27 mil km², o equivalente ao Estado de Alagoas. Em 2005, foram mais 18 mil km² e em 2006, 14 mil km².

    A redução tem sido significativa, mas, as grandezas somadas resultam no desmatamento de 59 mil km²: uma área maior do que o Rio Grande do Norte e muitos países da Europa, cujo PIB é maior que todos os estados da Amazônia juntos.

    Isto pode significar que os desbravadores, que se dizem os cavaleiros do desenvolvimento, estão mais para o último selo do que para a gênese.

    Não é aceitável que o Brasil não tenha a capacidade de gerar a riqueza que pretende usando esta imensidão de área já degradada.

    Nela dá para plantar a soja, criar o gado e produzir o etanol necessário. Não é possível continuarmos sendo permissivos ao avanço da incompetência produtiva sobre a floresta.

    Mesmo com a redução do avanço, ainda há uma estatística perversa a nos perseguir: todo ano, com o desmate, o Brasil despeja 410 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera ao derrubar 600 milhões de árvores. Com isto, mata 20 mil aves e 750 mil primatas.

    O maior estrago neste avanço sobre o patrimônio florestal amazônico está no Pará: em 2006, sumiu do estado 5.500 km² de mata nativa, o equivalente a superfície do Distrito Federal.

    Não há modo mais eficaz para estancar o apetite dos que praticam a imprevidência em nome da geração de riquezas, do que a moratória pura e simples do desmatamento, até que se consigam elementos suficientes para permitir a exploração absolutamente sustentável das riquezas florestais.

    07. O ensaio

    O modelo adotado para emprestar pujança econômica à Amazônia é tão equivocado que sequer conseguiu dar alívio à pressão urbana das grandes cidades da região, ao contrário, inchou-as no mais desordenado processo de ocupação periférica.

    A qualidade de vida nas cidades se deteriorou. As metrópoles da região cansaram e o Estado não consegue responder a esta fadiga estrutural, a ponto do modelo democrático institucional correr riscos de completo descrédito.

    As políticas públicas, devido à dinâmica migratória contumaz, não conseguem acompanhar o ritmo frenético dos fatos sociais e suas repercussões, o que preconiza a busca de uma nova forma de Estado para a Amazônia, pois este que a tenta sistematizar, perdeu-se nos seus próprios erros.

    Há que se buscar uma inteligência amazônica que subverta esta ordem e elabore a sua própria agenda de desenvolvimento: para isto precisamos desenvolver instrumentos científicos próprios.

    Talvez seja possível industrializar a Amazônia. Mas, a sustentação desta possibilidade só poderá ser alcançada se os paradigmas que deram régua e compasso à neurologia atual forem radicalmente modificados.

    O maior valor econômico da Amazônia é a sua biodiversidade e como não sabemos o que fazer com ela – sequer a conhecemos – a estamos destruindo.

    Enquanto isto, a parte do mundo que investe em pesquisa biotecnológica, cuida de capturar a massa genética que sobra das cinzas, para depois nos vender ao preço do ouro que também já cavamos à exaustão.

    Sabe-se hoje que uma castanheira produz em um ano o que uma vaca produz em três: quando derrubamos as castanheiras trocamos três por um. E se colocarmos na conta o passivo ambiental gerado na sandice, ao invés de números teremos lágrimas.

    Por fim, um ponto que poucos cozem nesta veste enjambrada: o desaparecimento da cultura amazônica.

    Se você se considera um ser amazônico, você é uma espécie em extinção.

  6. almira martins disse:

    Mitschein me apresentou Fanon … que me abriu os olhos. Uma das reflexões mais interessantes postas pelo autor de Les damnés de La terre, na relação colonizador X colonizado é: “Se queres aí a tens; a LIBERDADE para morrer de FOME”. É essa liberdade que políticas públicas “instituídas em favor da Amazônia” estão trazendo á região. Aliás, tal operação vem se repetindo há séculos, mas não sem a conivência do poder político. A inoperância instrumental capaz de levar a ciência aonde deve chegar, sem, no entanto, carregar consigo a onipotência do saber acadêmico, pretensamente melhor que o tradicional, é um dos pilares para a “sustentabilidade de asfalto”. Fica em discursos inflamados. Pouco ou nada consegue de concreto. No entanto, concordo com FENZL, ao afirmar a imperiosa necessidade em “desentropizar” o ciclo extrair-processar-consumir-descartar, na intenção de dirimir a inssustentabilidade acentuada no século XXI. Enquanto isto, a Hiléa é livre …para morrer de fome!

  7. Alberto Teixeira da Silva disse:

    Modernidade insustentável

    Dos escombros da primeira modernidade (industrial) e suas promessas de progresso e felicidade, emerge uma modernidade de risco, distribuidora de malefícios e turbulências. Assim Ulrich Beck assinala está passagem logo no primeiro capítulo do seu livro La Sociedad del riesgo: “Na modernidade avançada, a produção social de riqueza é sistematicamente acompanhada por uma produção social de riscos. Portanto, os problemas e conflitos de partilha da sociedade de carência são substituídos pelos problemas ou conflitos que surgem da produção, definição e repartição dos riscos produzidos de maneira cientifico- técnica”.

    Estamos envoltos numa época histórica marcada por outra modernidade, radicalizada pela revolução nanotcnológica, convergência da parafernália comunicacional, consumismo frenético de bens e expansão ilimitada das forças produtivas. Sob o signo das rápidas transformações e mudanças paradigmáticas está se globalizando um capitalismo multifacetado e imprevisível. Para compreender a intensidade da crise atual de dimensões planetárias, é fundamental refletir o imbróglio dos tempos hodiernos, configurando redemoinhos e dúvidas projetadas pela sociedade global.

    A interdependência crescente entre blocos econômicos, sistemas produtivos transnacionais e as diferentes esferas da experiência humana tem sido a marca registrada da sociedade contemporânea, interligando saberes e processos societais. Na década de 1960, o sociólogo canadense Marshall McLuhan cunhou a metáfora ‘aldeia global’ para designar mudanças e percepções derivadas da revolução dos meios de comunicação, sobretudo a partir da televisão, antevendo aquilo que outro sociólogo, o espanhol Manuel Castells iria definir no final do Século 20, a partir das novas tecnologias - o paradigma informacional.

    Ondas ininterruptas de inovações e insights movem comportamentos, estilos de vida, padrões de produção e consumo, recriam-se identidades e simbolismos para designar uma era de conexões e interatividades globais, potencializada pela internet e redes (networks) tecidas no ciberespaço. Esses acontecimentos trazem uma sensação crescente e estonteante de transições fundamentais na aurora do terceiro milênio. Como lembra Milton Santos, geógrafo brasileiro cujo reconhecimento ultrapassa linhas territoriais, intelectuais e lingüísticas, “acelerações são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo”.

    A anatomia dessa admirável modernidade líquida (para usar a expressão emblemática de Zymunt Bauman) reside numa sociedade prenhe de inseguranças, transfigurada por laços efêmeros, sociabilidades fragilizadas e contraditórias, engravidada de riscos cruciais e desafios decisivos. Estamos na encruzilhada de um modelo civilizatório perdulário que nos empurra para o abismo, embora se acredite na luz no fim do túnel. A dinâmica geopolítica mundial hegemonizada por um seleto grupo de países espelha uma arquitetura de governança assimétrica em termos de recursos de poder, estágios de desenvolvimento e perspectivas de futuro, ignorando a construção de pilares éticos globais que garantam a consolidação de valores perenes e efetivamente civilizatórios, como a paz, tolerância, democracia e cooperação para o desenvolvimento duradouro equitativo e justo entre os povos.

    Desordens climáticas marcadas por catástrofes socioambientais – fenômenos contrastantes e arrasadores como enchentes, secas, invernos e verões rigorosos e extremos de temperatura, que ora castigam as regiões norte, nordeste e sul do Brasil, assim como outros países em proporções diversas – aliam-se aos dramas cotidianos da violência, pobreza, corrupção, stress urbano, marginalidade e degradação sociopolítica. Estas situações caóticas estão se reproduzindo no espaço global (que inclui o local) pela lógica da racionalidade instrumental, colonizada pela visão econômica do crescimento ilusório e de modelos supostamente progressistas fundados no padrão de bem estar ocidental. Enfim, um cenário que retrata a barbárie contemporânea. A modernidade do século XXI tornou-se perigosa e insustentável num mundo gravitado por desesperanças e incertezas.

    Alberto Teixeira da Silva
    mestre em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos
    doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas
    professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará

  8. Adelaide Miranda disse:

    Ao pensar na floresta que aos poucos perde seu encanto nas mãos de depredadores contumazes, faço minhas as palavras de Renato Russo: “disseste que se tua voz tivesse força igual a imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira”. Até que ponto viveremos a gritar aos quatro ventos sobre a devastação sem fim da nossa Amazônia? O que nós, cidadãos comuns podemos fazer para que esse estado de coisas acabe de forma definitiva? Estamos sempre a aguardar por forças políticas que afinal de contas nada fazem para a mudança da situação.
    Nas rodas intelectuais o discurso é intenso e profícuo, todavia quando esse discurso alcança os níveis políticos, parece-nos que esse alcance chega de forma atrasada ou distorcida, de maneira que os projetos de sustentabilidade parecem não avançar. Na minha modesta opinião, a corrupção em todos os níveis de nossa sociedade tem emperrado os processos de avanço neste sentido, pois quando se escapa dos altos escalões do poder público, cai-se nos mais baixos escalões, a julgar pelas CPIs da vida, assim como, pelas diversas polícias que deveriam defender a sociedade e instituições que deveriam defender o meio ambiente e não o fazem de forma adequada.
    No artigo “A Amazônia encantada”, percebemos o tom saudoso de nosso ilustre Deputado Parsifal Pontes, também tivemos acesso a alguns dados estatísticos, mas queremos mais além de ver, esbarrar, arranhar, tocar, representar o enorme circo absoluto. Queremos políticas públicas capazes de garantir a preservação do nosso meio ambiente, de nossa cultura, queremos educação pública de qualidade para nossas crianças, para que, quando adultas, estejam aptas para um trabalho fidedigno e seguro sem necessitar recorrer ao mercado informal. Querer estas coisas, não representa nenhum absurdo. Mas, de certa forma, segurança para o Estado, que não necessitaria investir tanto em penitenciárias e em segurança pública.
    Sei que não estou descobrindo a pólvora com este discurso, mas não poderia perder a oportunidade de mais uma vez gritar as minhas dores.
    Estar em extinção, como ser amazônico que sou, me causa arrepios, pois penso logo por quem serei devorada, garanto que por uma onça pintada é que não. Não possuo dados estatísticos, mas, em meu saber empírico, vejo que a grande causa de morte neste país são doenças agravadas pela fome, o descaso com a saúde pública, e a violência urbana. Não se pode resolver uma coisa sem resolver outra. Penso que necessitaríamos de um “projetão” de desenvolvimento que abrangesse os aspectos: meio-ambiente, cultura, educação, saúde e segurança pública. É utópico? Se é, então devemos desistir, parar de gritar e aceitar nossa condição de espécie em extinção até que nos tirem o direito de viver, digo, de sobreviver.

  9. Alex Fiúza de Mello disse:

    O FUTURO DA AMAZÔNIA NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

    Pensar a Amazônia no contexto do mundo em que vivemos impõe, de início, um duplo desafio: o primeiro, o da análise diagnóstica do tipo de sociedade em que estamos inseridos (a natureza de suas relações, sua dinâmica e configurações institucionais); o segundo, o da análise prospectiva do desenvolvimento social em curso (mudanças dos padrões societários, transformações dos patamares e formas de interação, reordenamento e redefinição dos papéis e espaços das instituições). Sim, porque toda e qualquer sociedade particular, como toda a sua gama de instituições e tradições, é um organismo dinâmico de natureza histórica que, para estar apto a sobreviver e desenvolver-se, precisa acompanhar a evolução dos tempos, reeducar-se a cada conjuntura e contexto, reequacionar-se permanentemente em sintonia com as metamorfoses sociais mais amplas, comprometendo-se seus atores, por essa inserção ativa, com a construção consciente do devir.
    Vivemos o alvorecer de um novo século que anuncia um novo milênio. Um tempo que, cingido nos enredos de um imaginário social ainda plasmado pelas tradições escatológicas milenaristas de nossa cultura ocidental, no fragor espontâneo do jogo das mentalidades (e pela pulsão manifesta do inconsciente coletivo subterraneamente presente), é ritualizado e urdido enquanto ícone de forte apelo simbólico, prelúdio de uma nova era, momento singular, superlativo, ímpar, carregado de imagens, de expectativas, de utopias, mas também de incertezas, de temores, de perplexidades. Neste contexto, na moldura maior dos desafios projetados pelo espírito humano, nos limites de sua consciência possível, o tempo presente se transforma no observatório mais elevado de toda leitura do mundo, no standpoint de toda reflexão, patamar privilegiado a partir do qual, ao pensamento, o balanço crítico dos rumos cumpridos pela história se impõe como exercício fundamental e intransferível de mapeamento de nosso estar no mundo, de deslindamento da antropologia de nossa condição (“pós”?) moderna, pré-requisito para novos desenhos, prognósticos e projeções dos desdobramentos possíveis do devir, em todos os campos e expressões da atividade humana.
    Obviamente que as convenções de uma simples mudança de calendário e seus registros numéricos não determinam, de per se, por efeito mágico, transformações fantásticas no conteúdo da trama social, condenando abruptamente à obsolescência tudo o que nos foi legado pelo passado. Ao contrário, como nos lembra Hegel, o sentido do presente só pode ser compreendido se formos capazes de apreende-lo como momento sintético e culminante de todo um processo de evolução em curso, enquanto presentificação reflexiva do lugar onde nos encontramos a partir do horizonte da história na sua totalidade. Da mesma forma que, numa perspectiva de longue durée, os eventos mais remotos se encontram intrinsecamente interconectados com as configurações mais avançadas das conquistas tecnológicas hodiernas (e, no limite, estas não se explicam sem aqueles) – lembre-se a cena antológica do filme 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick, em que o osso lançado ao ar pelo primata se transforma, em câmara lenta, numa nave espacial –, assim também recai sobre as asas do novo pássaro secular nascente o peso da genética e os delineamentos da morfologia herdados do último século. Não há vôo livre no vazio!
    Mas o que nos adverte o tempo presente? A que tipo de legado ele nos remete e nos faz herdeiros? Que visões ele nos esquadrinha e desvela para que, na perseguição insistente da virtù e da vontade de potência, no combate infatigável das utopias possíveis, possamos nos instrumentar com as armas justas frente aos dilemas e desafios postos nos horizontes do terceiro milênio e, assim, conscientes, ensaiarmos o nosso papel de sujeitos de nosso destino ?
    Por certo, e primeiramente, a dificuldade maior ao deslocamento criterioso do olhar não é a da percepção de que o mundo mudou. Na verdade, ele sempre mudou. O difícil é dilatar a retina para acostumá-la a perceber que as mudanças atualmente sob mira são de ritmo e grau qualitativamente distintos do passado – e toda singularidade só se revela no exercício atento da comparação. Em segundo lugar, resta ainda examinar o alcance e o significado de tais transformações; verificar se tais mudanças de ritmo e de grau do processamento e reordenamento dos fenômenos humanos não nos estaria conduzindo a um gênero diferente de sociedade, a um patamar outro de sociabilidade, cuja configuração estaria a impor uma revisão profunda e, mesmo, radical da natureza das instituições, de suas funções, feições e legalidade.
    O diagnóstico de nosso tempo nos sugere, antes de mais nada, e com base nos sintomas mais evidentes, que somos herdeiros de uma civilização que elegeu o progresso técnico e a acumulação privada e ilimitada do excedente econômico como os vetores básicos de todo ordenamento da vida social. Emergido enquanto revolução comercial, a ligar a Europa ao resto do mundo, o capitalismo moderno, na figura originária do mercantilismo seiscentista, constituir-se-á, desde então, num encadeamento de processos econômicos e políticos de amplo espectro, de impacto mundial, que subverterá progressivamente, no Velho Mundo e alhures, formas tradicionais de reprodução da vida material – como o feudalismo agrário, fundado no domínio da terra –, até finalmente alcançar, com a Revolução Industrial do Oitocentos, um patamar mais sólido e decisivo para seu pleno desenvolvimento enquanto modo de produção. Com o industrialismo, graças às inovações no sistema produtivo decorrentes do emprego de novas fontes de energia, inaugura-se uma nova era na história da humanidade em que fica definitivamente superada, no âmbito do processo de trabalho, a dependência da destreza e da força humana, limitadas, assumindo a máquina a condição de fator central de todo progresso material e dos novos parâmetros e escalas de produtividade, agora ilimitados. E como, dialeticamente, sempre existe uma íntima e orgânica ligação entre forças produtivas e cultura, entre matéria e espírito, formas inéditas de interação, de controle e de ordenamento social e político passam, então (séc. XIX), a reconfigurar o mapa do mundo, redefinindo-lhe as coordenadas e vetores de sua dinâmica e institucionalidade.
    O século XX foi o período da consolidação e ampliação da Revolução Industrial burguesa e de todos os demais fenômenos que a ela estão associados: a proliferação da forma urbana de vida; a migração do campo para a cidade; a explosão demográfica; o dilatamento do mercado de trabalho e de manufaturados; a racionalização dos procedimentos de gestão; o consumismo; a ética individualista; a concentração do capital. Tendo por substrato material o prosseguimento e a intensificação da revolução científica e a expansão cada vez mais aperfeiçoada de sua aplicação utilitária, a técnica, o século que há pouco se esvaiu não conheceu limites para dinamizar os interesses do mercado, sua expansão e eficiência, para isso elevando à última potência os investimentos no progresso do conhecimento – já então propriedade inalienável do capital, como denunciou a Escola de Frankfurt nos anos 1930/60–, fato fundamental que possibilitou as ininterruptas e contínuas rupturas com padrões e ciclos produtivos previamente instalados, a superação incessante de seus códigos de funcionamento e efetividade, o alargamento e diversificação inesgotável das potencialidades da criatividade humana.
    O resultado tardio de todo esse progresso está sintetizado nos avanços da robótica e da automação e na revolução da microeletrônica, acontecimento que nos impulsionou a ingressar, ao apagar do século, num inédito e surpreendente paradigma tecnológico, o informacional, o qual aponta para um novo e irreversível modo de desenvolvimento das forças produtivas cuja fonte básica de produtividade reside na tecnologia da geração de conhecimentos (na ação permanentemente renovada do conhecimento sobre os próprios conhecimentos), envolvendo técnicas cada vez mais eficientes e sofisticadas de processamento da informação e de comunicação de símbolos. Um universo de potencialidades produtivas incomensuráveis, do qual ainda nada mais fizemos que provar tão-somente os primeiros efeitos, mas que já impacta o conjunto das relações humanas, em todas as latitudes e dimensões, penetrando e reformatando estruturas de poder e a dinâmica da experiência cotidiana em todos os campos e instâncias de sua manifestação.
    Vivenciado como uma era de extremos, no dizer do historiador inglês Eric Hobsbawm, e graças às oportunidades criadas pela ciência e pela técnica, o século XX foi um século historicamente inigualável no que tange à rapidez e à radicalidade das transformações de toda ordem: econômica, política e social. A velocidade de tais mudanças pode ser emblematicamente ilustrada pelo crescimento da população mundial ocorrido no período e que simplesmente quadruplicou o número de habitantes do planeta relativamente à situação existente ao final do século XIX. Quando Malthus publicava, na Inglaterra, em 1798, seu primeiro Ensaio sobre a população e, com pessimismo, prognosticava que a força da terra seria insuficiente para satisfazer as necessidades crescentes e indefinidamente maiores da força da população, os habitantes da Terra não passavam de 1 bilhão – não obstante os milhares de anos que foram necessários para que a humanidade atingisse tal cifra. Nos cem anos que se seguiram, a taxa populacional saltou para 1 bilhão e meio, multiplicando-se, a partir de então, numa velocidade sem precedentes: 2 bilhões, em 1925; 4 bilhões, em 1975; 6 bilhões, em 2000. O que Malthus não havia previsto eram os efeitos que, à produção agrícola, seriam importados pela Revolução Industrial, redefinindo os elementos da equação: melhorias sucessivas e cumulativas na rotação das lavouras, nas técnicas de plantio e de criação de animais, novas ferramentas agrícolas (industriais), drenagem de pântanos, além das melhorias nas comunicações, nos transportes e acesso a novos mercados. O crescimento demográfico já era uma variável dependente do próprio desenvolvimento tecnológico, o qual, proporcionalmente àquele e nos mesmos ciclos temporais, dar-se-ia por saltos e progressão geométrica , ao ponto de, entre os anos 1950 e 1990, graças aos milagres da biotecnologia, as colheitas mundais de grãos terem chegado a aumentar quase três vezes, superando o próprio aumento da população global. A exemplo do setor agrícola, fato é que, em todos os domínios da atividade produtiva, e por obra dos investimentos em pesquisa básica e aplicada, o saber científico acelerou tanto neste século que se acumularam mais conhecimentos tecnológicos nos últimos vinte anos do que em toda a pregressa história da humanidade. E assim continuamos a evoluir.
    No quadro das comunicações e de seus meios, o século recentemente vencido também foi extremamente pródigo em realizações: saltamos do rádio, na década de 1910, para a televisão, na de 50, evoluindo para a instantaneidade interativa da internet, nos anos 90; passamos do navio à vapor ao avião; do mar e da terra às conquistas espaciais. Além disso, não podemos esquecer as maravilhas do cinema e do telefone (hoje celular) e as demais facilidades advindas do uso do satélite. O aperfeiçoamento dos meios de comunicação e de transporte promoveram e radicalizaram aquilo que outrora já se manifestara como uma das características mais singulares e marcantes da era moderna e de sua mecânica social: a contração do espaço e do tempo. Subitamente, o planeta encolheu. O que parecia distante, tornou-se próximo; as interconexões de convivialidade ultrapassaram os limites do espaço circunscrito ao “local”. A noção de “tempo” desvencilhou-se daquela de “lugar”. Não por menos ensaia-se, nesta travessia milenar, num mundo integrado por redes globais de instrumentalidade e em meio a uma crise profunda marcada pela busca por novos significados e espiritualidade, outras combinações referenciais de identidade cultural e de vínculo comunitário. O “desencaixe” das relações dos contextos simplesmente locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo/espaço (ou “reencaixe”, no conceito do sociólogo inglês Anthony Giddens) aporta “desterritorializações” que desenraizam não apenas costumes e valores, estruturas e processos, reciclando-os em outras escalas e parâmetros de referência para-além da tradicional circunvizinhança, mas, igualmente, e inclusive, tais transformações alteram o sentido de nossa percepção da própria materialidade do ser, fenômeno que inspirou o antropólogo francês Marc Augé a expressar que, na alta-modernidade (surmodernité), “ ‘aí’ está o ‘agora’ ”, ou, “vamos ao ‘aqui’ ” – numa alusão à inversão do sentido de tempo e espaço. O espaço deixa de ser “lugar” para se tornar “situação”; o “presente”, antes que se faça “agora”, já é “passado”; o “novo” já nasce “velho”; a novidade, arcaica; e o futuro, perdendo a cada dia seu tradicional encantamento, encontra paradoxalmente sua simbologia arquétipa no computador de última geração, que já vem programado para nascer “ultrapassado”. No limite – como alertava um século e meio atrás um velho filósofo alemão – tudo que é sólido se desmancha no ar!
    As mesmas técnicas que desterritorializaram identidades, que interconectaram consciências distantes, criando aquilo que McLuhan cunhou, nos idos anos 1960, de “aldeia global”, essas mesmas técnicas aproximaram os mercados e engendraram, pela primeira vez na história, um sistema econômico de estrutura e funcionamento efetivamente globalizados. Não que o processo de mundialização da economia já não estivesse em curso pelo menos desde o estabelecimento do sistema colonial ultramarino europeu, depois reforçado pela Revolução Industrial e pelas ações imperialistas dos países centrais que a ela se seguiram. O fato é que, a partir do final da II Grande Guerra (1945) e impulsionando a economia internacional para o que seria uma longa onda de crescimento e prosperidade (Golden Years), os avanços tecnológicos auferidos naquele contexto proporcionaram novas oportunidades de oxigenação e expansão dos negócios e de suas estratégias de operacionalização (basta aqui pensar nos benefícios da telemática), ampliando as zonas de influências das grandes empresas e oferecendo-lhes os instrumentos necessários e eficientes para o gerenciamento de todo esse boom. Surgem, no cenário, as firmas transnacionais, também conhecidas como multinacionais (com seus múltiplos tentáculos estendidos por sobre as fronteiras das nacionalidades), uma nova divisão internacional do trabalho (agora de territorialidade mais flexível e fundada em economia de escala) e a hegemonia do ramo financeiro do capital (com suas transações eletrônicas instantâneas e ininterruptas), fatores que, além de favorecerem uma maior acumulação, expansão e centralização do valor excedente, conduzem a economia capitalista a escapar do e a transgredir o pretérito controle nacional de sua dinâmica e normatividade, configurando-se numa única e inédita unidade operacional de mecânica e diâmetro planetários, sistemicamente interdependente.
    No que respeita à arena da política, os últimos cem anos também se constituíram em um laboratório de grandes irrupções revolucionárias e de experiências extremadas, as quais, em interconexão com os processos econômicos em andamento, ajudaram a mudar significativamente a arquitetura das formações sociais, a correlação de forças em plano mundial e a respectiva geografia do poder. Para não esquecermos as lições mais duras, e ainda recorrendo às imagens de Hobsbawm, essas dez décadas poderiam ser caracterizadas como uma era de catástrofes ou de guerra total, aliás a mais sangrenta de toda a história, a considerar-se o apocalipse das duas Guerras Mundiais (1914-18 e 1939-45), com seus campos de concentração e o genocídio em massa, ou mesmo a sofisticação da tecnologia letal de violência exibida durante a Guerra do Golfo, no início dos anos 1990, ou na recente invasão do Afganistão (depois do 11 do setembro), ambas veiculadas cinicamente ao mundo, via satélite, como um simples e atrativo “mega-show” de pirotecnia de última geração, sob patrocínio de uma das indústrias que mais cresceram e lucraram no período: a de armamentos.
    Mas outros marcantes acontecimentos irão desencadear, no mesmo interregno, mudanças avassaladoras das ordens e cenários, transpondo e redesenhando, de maneira irreversível, as geometrias e hierarquias herdadas das constelações oitocentistas. Em primeiro lugar, com a ascensão dos Estados Unidos ao primeiro plano da cena internacional, o mundo deixou de ser eurocêntrico: um novo pólo de poder (econômico-político-militar) se instala à oeste do meridiano de Greenwich e o “século britânico” cede lugar ao que se convencionou designar por “século americano”. Em contrapartida, e deslocando, à sua vez, o eixo mais para o oriente, este será também o momento da primeira tentativa de instauração de um regime socialista no mundo: a Revolução russa de outubro de 1917. Independentemente de seu fracasso posterior, estampado nas imagens patéticas e imprevisíveis da desintegração da União Soviética, em 1991 (e que se seguiu à queda do muro de Berlim), o fato é que este foi um evento que mudou os rumos da história. Durante mais de setenta anos a URSS disputou com os EUA a pole position da hegemonia mundial, dividindo o planeta em duas grandes áreas de influência político-ideológica e marcando o ritmo e o compasso da geopolítica em todo o planeta. Muito do que foi o século XX restaria inexplicável fora da trama da “Guerra Fria”: a descolonização dos países africanos; os desdobramentos da revolução chinesa; a ascensão econômica do Japão; o reaquecimento dos conflitos no Oriente Médio; as ditaduras militares na América Latina. Some-se ainda a todo esse movimentado quadro, na esteira de suas contradições e na contramão paradoxal de tanta barbárie, os avanços inegáveis das conquistas democráticas em todo o globo: a expansão dos sistemas partidários; o sufrágio universal; o reconhecimento (ainda que em lei) dos direitos básicos de cidadania; o direito trabalhista à sindicalização; a liberdade de imprensa. Por fim, imperdoável seria esquecer três acontecimentos que, de indiscutível impacto social, contribuíram decisivamente para mudar os fundamentos e o arcabouço de toda a cultura política contemporânea, operando transformações irreversíveis: a revolução feminista (com a igualação progressiva de direitos entre os sexos, na arena pública e privada); a massificação da educação escolar (popularizando o acesso à cultura letrada); e a emergência e influência dos mass-media (com seu poder ideológico de formação e direcionamento da opinião pública). Três verdadeiras revoluções que, reverberadas pelo movimento de maio de 1968, subverteram os valores, os hábitos e as normas, redesenhando a anatomia da sociedade humana e a fisiologia de suas pulsações.
    Desenvolvimento científico e tecnológico, globalização, urbanização, centralização do capital, metamorfoses no mundo do trabalho, ampliação e sofisticação dos mecanismos de informação, apresentam-se, no alvorecer do terceiro milênio, como as principais tendências estruturantes de nosso futuro próximo. Compreender o significado de todas essas transformações, a extensão e o sentido de toda essa gama de inovações e o contexto macro-social no qual elas se processam, torna-se tarefa inadiável e de primeira grandeza para todos aqueles que pretendem projetar, com maior segurança, cenários futuros, elegendo e planejando, com maior consistência e lucidez, as estratégias de sua construção. Mesmo porque esse mundo que ora se renova está de tal forma engravidado de problemas, de paradoxos e de contradições, que as soluções terão de repousar em formas inovadoras e inéditas de articulação das capacidades humanas, cada vez mais sinérgicas, cooperativas e translocais. Grandes e urgentes questões, como a ecologia, a fome e a exclusão social, passam a exigir não apenas um patamar também global de ação, mas, igualmente, um novo modelo de internacionalismo (ou trans-nacionalismo), indutor de uma ordem mundial mais justa e democrática. E tudo isso emoldura o que hoje pode ser concebido como a “nova questão amazônica”.
    Esta terá de ser pensada, daqui para a frente, nos quadros da nova ordem mundial, avaliada e ponderada a nossa herança histórica secular de sociedade periférica (que ainda formata o inconsciente coletivo e esquadrinha o jogo das mentalidades em nível local e regional), verificando-se, com a contribuição das ciências exatas e naturais e das sociais, quais são os limites e as possibilidades, as ameaças e as oportunidades postas em cena para a efetivação de uma transformação da ação política que, detentora das devidas e necessárias informações estratégicas, seja mais inteligente, conseqüente e comprometida com o destino da maioria das populações locais.
    No passado, o controle dos meios de produção levaram ao controle da ciência e da técnica; o controle da ciência e da técnica levam, atualmente, ao controle dos meios de produção. O poder econômico sempre favoreceu o acesso ao poder do conhecimento; o poder do conhecimento tornou-se, hoje, o acesso inescapável ao poder econômico. Não há mais como desconhecer que os investimentos em educação e em pesquisa são as molas-mestras (insubstituíveis!) de todo esforço desenvolvimentista auto-sustentado. Para os povos periféricos, aliás, o desafio é imenso, gigantesco, a considerar a crescente disritmia, herdada do passado colonial e dependente, entre as exigências do desenvolvimento científico e tecnológico de ponta e as nossas capacidades reduzidas de acesso ao conhecimento e de investimento na geração desse conhecimento. Essa matéria não pode estar dissociada, por outro lado, do compromisso com um projeto educacional sério e conseqüente, comprometido com a universalização e democratização do conhecimento gerado por toda a sociedade, em todos os níveis de sua efetivação, para que a ciência produzida não conduza, a sua vez, internamente às regiões subdesenvolvidas, à ampliação ainda maior do fosso entre o topo da pirâmide social e suas bases.
    Tal desafio exige, por certo, solução criativa, compromisso social, competência técnica e vontade política. Trata-se, a engenharia do desenvolvimento econômico e social contemporâneo, de um processo complexo, não-linear e, acima de tudo, necessariamente interativo. O desafio da inovação envolve não apenas modificações (por vezes radicais) na tecnologia utilizada por uma empresa, um ramo produtivo ou uma estrutura governamental, mas igualmente mudanças significativas nos padrões organizacionais, de gestão e de comunicação. São inúmeros os agentes – econômicos, sociais e políticos – que estão envolvidos na trama e que precisam estar interconectados, por dominarem diferentes tipos de conhecimento e de informação. A solução para a maioria dos problemas de desenvolvimento – tendo por premissa aquele tecnológico – supõe a utilização de conhecimentos de múltiplas fontes, as quais estão enraizadas em pessoas, organizações e locais determinados, nem sempre de fácil acesso.
    Não há como ignorar: a cooperação e a parceria, politicamente assumidas, tornam-se o único caminho para que se possa acompanhar minimamente a envergadura do ritmo das mudanças em curso e não ficar para trás. Urge, nesse sentido, um formato mais dinâmico e flexível de organização institucional, sob o desenho de rede, a fim de que se possa, de forma eficaz, aproveitar-se as oportunidades e promover o aprendizado contínuo para a geração de novos conhecimentos e a introdução e/ou adaptação das inovações requeridas em cada contexto. Terão de ser redes múltiplas, envolvendo diversas instâncias organizacionais e agentes sociais, econômicos e políticos, com definição clara de diretrizes programáticas, dialogicamente arquitetadas entre os vários representantes, com linhas de investimento coerentemente definidas, gestadas, amadurecidas e aperfeiçoadas em fóruns de discussão e avaliação que terão de ser concebidos interinstitucionalmente. Somente este tipo de ambientação institucional estará à altura de promover, com maiores chances de sucesso, os investimentos justos e eficazes em pesquisa, produção e desenvolvimento, de maneira inovadora e realista. Será a fertilização cruzada de idéias, sistematicamente avaliadas e renovadas, que promoverá e garantirá os ajustes na interface educação/ciência/tecnologia/desenvolvimento, com efeitos positivos para a sociedade.
    Assim compreendido, a consolidação de algumas redes interativas e interinstitucionais poderão ajudar a atenuar toda essa grave disritmia, anteriormente referida.
    A integração dos sistemas educacional e de ciência e tecnologia parece fornecer uma primeira via para um salto qualitativo, mediante uma concentração mais coordenada de esforços e investimentos. São sistemas que não podem correr paralelos, pois precisam alimentar-se mutuamente. Não se pode mais conviver, no país, com paradoxos como o da expansão invejável da pós-graduação e do número de doutores formados (que triplicou nos últimos dez anos), tendo como contrapartida um insignificante crescimento da escolaridade média, que cresceu apenas dois anos em uma geração – isso sem falar nos contingentes nada desprezíveis de professores leigos que ainda persistem em reproduzir-se no interior de regiões mais afastadas dos principais centros urbanos.
    A aproximação entre o setor produtivo em geral (grandes e pequenos produtores), os centros universitários e de pesquisa e o governo representa um segundo caminho, complementar ao primeiro, para os ajustes necessários na definição de políticas desenvolvimentistas e sua execução. A construção de redes mais visíveis e sólidas de cooperação entre as várias instâncias citadas, respeitadas a diversidade e a singularidade de cada caso, com formatos institucionais mais inteligentes e mais flexíveis, apoiados em fóruns permanentes de articulação e debate entre dirigentes de órgãos governamentais, empresariais, científicos e da sociedade civil em geral, por certo ajudaria a otimizar os investimentos necessários e impulsionar o processo inovador dentro das limitações econômicas postas. Além do mais, somente nesse formato institucional estaria assegurada a mobilidade desejável de competências, pelo desafio exigida.
    Nossas interlocuções ainda são esparsas, fragmentárias, pouco orgânicas, descontínuas. Os desafios postos no horizonte jamais serão vencidos enquanto o isolacionismo, alimentado por uma mentalidade colonizada e servilista de nossas elites, continuar a imperar no encaminhamento de nossas políticas e práticas institucionais. Afinal, o subdesenvolvimento, na essência, não é algo que tenhamos “diante dos olhos”, uma externalidade material, um simples dado mundano, mas o próprio húmus que, assimilado inconscientemente nas entranhas das mentalidades, subnutre o imaginário social, qual espécie de servidão ideológica que menospreza uma experiência cultural e as possibilidades criativas do contexto local e da história de um povo, tornando a consciência im-possível. E não há transformação sem idéias e vontade política.

    Alex Fiúza de Mello
    Doutor em Ciênciais Sociais (UNICAMP);
    Professor Adjunto IV do Departamento de Ciência Política/CFCH, da UFPA;
    Reitor da Universidade Federal do Pará.

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    Bibliografia

    Arrigui, G. O Longo Século XX: dinehrio, poder e as origens do nosso tempo. Contraponto/Ed. UNESP. São Paulo, 1996.

    Augé, M. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Ed. Papirus. Campinas, 1994.

    Benjamim, W. Obras Escolhidas, vol. 1. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1985.

    Braudel, F. A Dinâmica do Capitalismo. Terceira edição. Ed. Teorema. Lisboa, 1989.

    Castells, M. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Coltura (3 vols.). Ed. Paz e Terra. São Paulo, 1999.

    Giddens A., As Conseqüências da Modernidade. Editora UNESP. São Paulo, 1991.

    Habbermas, J. O Discurso Filosófico da Modernidade. Publicações D. Quixote. Lisboa, 1990.

    Harvey, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural,. Ed. Loyola.São Paulo, 1993.

    Hobsbawm, E. Age of Extremes: the Short Twentieth-Century 1914-1991. Abacus. London, 1995.

    Ianni, O. A Era do Globalismo. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1996.

    Jameson, F. Postmodernismo or Cultural Logic of Late Capitalism. Verso. London/N. York, 1993.

    Wallerstein, I. The Modern World-System, vol. I. Academic Press. London, 1974.

  10. ROMERO XIMENES disse:

    NEM NATIVISTA, NEM CIVILIZATÓRIO – TRANSFIGURAR AS MARGENS. TRAVESSIA

    Quando Francisco Orellana achou a futura região amazônica ficou intrigado com uma “verdade” proclamada e reafirmada pelos povos indígenas de que existiam ao longo da calha do grande rio “mulheres guerreiras” poderosas e dirigentes de um “grande reino”. O enunciado correspondia ao mito grego das Amazonas descrito por Heródoto na sua “história”.
    As mulheres guerreiras dos índios se chamavam Icamiabas, Iamuricumás, Cunhantã-tecoimás. A coincidência dos imaginários — índios e europeus pensam/viviam um mito semelhante — criou um arquétipo, definidor e nominador de natureza hiperbólica que tem imposto um modo de pensar a região e acabou por batizar o grande rio (sec. XVII) e a própria região (séc. XIX): Rio Amazonas e Região Amazônica, respectivamente.
    Esta força de coincidência dos imaginários permitiu reunir os dois pensamentos em confronto, resultando em algo diferente das formas iniciais, embora as confirmando, impediu o predomínio do pensar do colonizador. A Amazônia, assim constituída não mergulho no universo da “racionalidade” do mercado e da mercadoria. O mundo do encantamento mítico é a forma histórica de resistência.
    Nos dias de hoje surgem novas formas de resistência através da transfiguração das formas de produção da vida características da reunião Estado-capital. São experiências ainda localizadas, mas que guardam um potencial apreciável de expansão/demonstração.
    O antropólogo norte-americano Terence Turner aponta os Kayapó Gorotire do Rio Fresco e os Kayapó da aldeia Kapot como um grupo que “colonizou” as instituições do estado brasileiro (FUNAI, Funasa etc.) ao impor por pressão política articulada com aliados não índios nacionais e estrangeiros. Assim, transformaram as instituições que historicamente “branqueavam” os índios em instrumentos de reafirmação da identidade e dos interesses tribais. Assim os Kayapó, uma sociedade que “conseguiu garantir uma excepcional solidariedade política e social, e uma notável continuidade cultural, frente aos severos desafios que lhe tem sido lançado por elementos poderosos da sociedade nacional”(1).
    Os Kayapó usam as maquinas de filmar de tecnologia “branca” para gravar suas festas tradicionais e assim reproduzir sua cultura. Aliás, o conceito antropológico de cultura foi apropriado para falar orgulhosamente da “nossa cultura”. O “renascimento” Kayapó inclusive desautorizou os diagnósticos dos antropólogos dos anos 60, 70 que preconizavam a extinção inexorável dos povos indígenas que seriam tragados pela expansão capitalista na floresta.
    Até mesmo os preconceitos dos brancos que apontavam os Kayapó como “sanguinários” e “violentos” são manipulados por estes no processo de defesa e manutenção do seu território. Há uma leitura dos modos do outro para inibir a sua própria violência. A própria mercadoria, elemento estruturante básico de economia capitalista é transfigurada entre os Kayapó:
    “Assim como a totalidade social é vista agora como constituída de um lado nativo e um lado brasileiro – com a fronteira entre eles definida pelo movimento de mercadorias e pela luta por uma autonomia diante da fonte destas mercadorias –, assim também o grupo doméstico e o membro individual da sociedade nativa se tornaram seres duplos, divididos diametralmente entre uma parte interna, Kayapó, e uma parte externa, feita por mercadorias brasileiras”(2).
    Em estudo mais recente Cesar Gordon(3) mais longe na descrição e interpretação dos usos das mercadorias obtidas dos brancos, sobretudo através dos repasses feitos pela Cia. Vale do Rio Doce através de convênios e indenizações, criaram um novo sentido no qual a cultura Xikrin transfigura as mercadorias que passam a ser usados para produzir parentes e reforçar as redes sociais de reciprocidade.
    As mercadorias conferem prestígios a quem as distribuem a assim os rituais tradicionais são os mecanismos de distribuição, cujo sentido é negar o “branqueamento” (tornar-se Kubên) e reafirmar a condição de Xikrin. O uso Xikrin das mercadorias implica em ser considerado “rico” quem distribuir oferecendo festa ritualística de nominação ao contrario da lógica capitalista de acumulação de bens.
    Segundo Gordon: “A equação é: mais parentes, mais riqueza,mais beleza, mais agencia. Essas coisas andam juntas na sociabilidade mebêngôkre”(4).
    Esta subversão da mercadoria indica uma vasta possibilidade aberta para adotar instituições e coisas “de fora” permanecendo Xikrin.
    A pressão por consumo e “modernização” parece ser a forma de estabelecimento da sociedade da mercadoria na Amazônia tradicional. A possibilidade apontada de transfigurar e re-traduzir a lógica do capital e submetê-la à lógica da cultura local, pode indicar um novo campo de criação de um espaço histórico inédito para além das dicotomias e possibilitando um fazer historia enquanto “produção do novo”.
    Carnavalizar o dominante subvertê-lo, despojá-lo de sua essência de fascínio e de poder e criar um “nós” aberto ao “outro” para sermos um nós/outro não confirmados, nem dominantes, poderia ser um indicador de um movimento que denominaríamos de AMAZONÁLIA e que seria capaz de abrigar os destroços do ocidente em desespero.

    ROMERO XIMENES
    ANTROPÓLOGO
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    (1) TURNER, Terence. De Comoslogia a História: resistência, adaptação e consciência social entre os Kayapó. EM Viveiro de Castro, Eduardo e Carneiro da Cunha, Manuela – Amazônia – Etnologia e História Indígena. NHIJ/ USP/ FADESP. São Paulo, 1993.

    (2) TURNER, Op. Cit. Pagina 60.

    (3) GORDON, Cesar. Economia Selvagem – ritual e mercadoria entre índios Xikrin – Mebêngôkre. Editora UNESP. Rio de Janeiro, 2006.

    (4) Gordon, Op. Cit. Pagina 333.

  11. Madalena Silva disse:

    Estamos vivendo os sinais dos tempos, previstos por profetas bíblicos e místicos. Minha pergunta não seria “o que será da espécie humana no século XXI?”, mas seria “o que será da vida neste século? Será que chegamos a este ponto por conta da barbárie ou seja lá o que for? Diria que por um acúmulo da fatores, evidenciados ou não pela ação humana.
    O homem faz tudo aquilo que convém a sua capacidade de intelecto, posto que não há limites. Se sua ação é favorável à vida ou não, não significa que este vá parar por aqui. Esta que é a realidade. Seria impossível conceber um retrocesso da humanidade, muito embora seja imperativo para a continuação de sua existência.
    Em se tratando de humanidade, tudo avançou: a ciência, a tecnologia, a violência, a capacidade destrutiva, a poluicão, a densidade demográfica, etc. Todo este avanço vem acompanhado de um efeito colateral, estabelecido pela ordem natural enunciada pela lei da física de que “toda ação corresponde a uma reação, etc e tal”.
    Então, os cataclismas, as guerras, as cadeias, as epidemias, a violência urbana e rural, e outros “sinais”, são elementos já estabelecidos sabe-se lá por quem, para que a Terra tenha um número “X” de vidas, afinal a Terra tem um tamanho fixo e se todo mundo viver muito, falo entre todas as espécies vivas, como a terra poderá dar alimento para um contingente tão alto, baseado em que as cadeias alimentares, via de regra, são quebradas, apresentando verdadeiras rupturas no seu sistema?
    O homem, enquanto ser que pensa e que por isso se considera superior, com seus “ismos”, com sua tecnologia, com sua capacidade de domínio sobre os outros seres, nada poderá fazer para evitar a ordem natural, posto que não atua a favor desta e sim a seu próprio favor, numa disputa eterna, existente em todas as espécies. O mais forte sempre prevalecerá sobre o mais fraco. Podemos até tentar alguma iniciativa pelo bem do clima, da natureza. Mas sabemos que estaremos sendo prolixos. A Natureza não age de acordo com a natureza humana e o homem não mudará agora sua própria natureza em favor da Natureza Maior. Não foi educado para isso, ao contrário, desde cedo, numa atitude ranhenta, arranca as folhas da Ordem Natural. Não se contenta em esperar que um outono as deixem cair flutuantes. E, então, começa a criar lendas, histórias, formas de pensar, advindas de seu próprio medo. Mas ele devia ter medo de si mesmo. Ele é inimigo dele mesmo.
    Tudo isso parece louco. E é louco mesmo. O homem tem medo de amar, porque o homem tem medo de Deus por não conhecê-lo. Então segue com suas próprias medidas paliativas, que afinal de contas só causam sua própria destruição.
    Amigos, não estou erguendo nenhuma bandeira, apenas apresentando uma evidência que todos podem perceber. Nós somos humanos, compomos a humanidade, gerenciamos nossos conflitos muitas vezes sem sentido, estudamos, não somos psicólogos, engenheiros, médicos, cientistas de qualquer área, apenas estudamos para isso. Quero dizer que somos humanidade, primeiramente e não primariamente. O que nosso conhecimento e experiência nos dão, não é o que somos. É só um acréscimo.
    Até que ponto o poder humano é considerado poder? O poder humano não é nada diante do poder da natureza. Vamos dar à Cesar o que dele é. Vamos ser mais simpáticos com nosso meio ambiente pois, caso contrário pagaremos em espécie o valor da nossa existência que já está sendo dizimada.

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